Literatura: peça teatral
Victória AMpessaN Damas
(“O Beijo no asfalto”, Decorridos Cinquenta anos do
seu lançamento ainda dá o que falar. POR certo É eterno!)
“Que a
intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o
entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir
questionando, buscando a sua versão da história...”
A peça “O Beijo no Asfalto” de
Nelson Rodrigues foi escrita há mais de cinco décadas, mesmo assim o ar trágico
PERSISTE COM SEU FRESCOR de recém-saído da máquina de escrever. Teriam esta e
outras obras não obtido força suficiente para mudar a realidade? QUEREMOS mesmo
mudá-la? Podemos viver sem MÁRTIRES?
“O Beijo no Asfalto” é
uma tragédia em três atos executada com genialidade. Os valores, peculiaridades
e a discussão da moralidade escolhidos por Nelson Rodrigues focam em sua época,
porém os temas se expandem a uma ASSUSTADORA ATEMPORALIDADE, remetendo-se à
natureza humana que pode se moldar aos diferentes contextos e épocas, mas SEM
PERDER SEU CONTEÚDO e, por vezes, fim trágico.
Em suas obras, Nelson Rodrigues nos expõe a VIDA
– ou melhor, uma VERSÃO genuína da vida que cada um entra em contato em graus
bem variáveis e que, mesmo assim, são histórias verídicas da sociedade, da vida
REAL.
Nos diálogos, o ser humano é exposto e o
verdadeiro jeito de se pensar vem à tona. Assim, percebemos a verdadeira face
dos personagens, encoberta e não admitida pelos próprios, cada um com sua razão
(ódio de si mesmo, da sociedade, vergonha, falta de questionamentos,
desinteresse pela verdade, medo desta, condenação massiva... Tantos motivos
quanto o número de personagens no livro... Na vida!).
A peça se inicia na OPORTUNIDADE. O delegado
Cunha precisava limpar seu nome, ou melhor, fazê-lo sumir da mídia. Como?
Aliando-se ao seu “difamador”, o repórter Amado Ribeiro, um verdadeiro parasita,
um predador que vai atrás de vítima a vitima por uma boa e rentável HISTÓRIA
(VERDADEIRA OU NÃO).
Infelizmente, Amado Ribeiro USA E ABUSA DO
PODER que tem (como o delegado Cunha) e suja o nome do jornalismo com seu
sensacionalismo, falta de ética, intrigas sem investigação, minúsculas
declarações retificadoras (quando presentes) e desinteresse pelas vidas
prejudicadas pelas mentiras ditas no jornal.
Com esse início, logo me veio à mente o filme
“Spotlight”. Algo mais tornava tão relevante sua premiação e visibilidade: o
jornalismo sério, ético e sem nenhum Amado Ribeiro de protagonista
(antagonista, na verdade). Estamos em um mundo que, a todo lado, vemos a falta
de ética dos contentores do QUARTO PODER (a MÍDIA), tornando reconfortante -
para não dizer INOVADOR - ver o mocinho nas redações de vez em quando.
A violência policial tem início nas primeiras
páginas: a quebra de procedimentos, a violência descontrolada de um policial
corrupto, manchando uma nobre profissão com tantos heróis. Cunha pode tudo, desrespeitar
um funeral, chantagear uma viúva, bater na barriga de uma grávida e violentar
uma mulher. Como diria o delegado, a polícia tem mesmo que “baixar o pau”!
Seria esse tema ainda atual? Algo para se pensar...
E,
então, é CRIADA uma “bomba” jornalística: Arandir, recém-casado e feliz, beija
um homem em seu leito de morte. A razão? Um beijo, um pedido de um ser humano que morria um
gesto real de AMOR SEM MALÍCIA ao próximo. Para o mundo, era hora de ele e
todos questionarem Arandir em todos os aspectos possíveis!
Enquanto a tragédia se instaurava, a ingênua
e um tanto alienada Selminha, esposa do rapaz, não percebia a gravidade do
ocorrido (havia gravidade até tal momento?), preocupando-se exclusivamente em
provar a seu pai, Aprígio, que era uma boa e FELIZ dona de casa (uma
NECESSIDADE que lembra muito as inúmeras fotos felizes e famílias perfeitas das
redes sociais postadas a todo vapor).
Com o pai e todo mundo questionando o
casamento de Selminha, ela própria se questiona (o quão delicadas seriam nossas
relações?). A vizinhança não perdoa até Arandir repensar sobre o ocorrido, suas
intenções, SUA VIDA.
A pergunta parece ridícula, mas atinge em
cheio nossa mente: QUEM SABE MAIS SOBRE ARANDIR, ele ou a mídia, a sociedade? A
ferrenha língua da população guarda na gaveta todo o moralismo, os costumes e a
tão respeitada “bondade” para jorrar veneno e insultos aos envolvidos,
revelando um PRAZER OCULTO.
De amigo, colega de trabalho, genro, cunhado
e marido, Arandir passa a ser denegrido, motivo de piada, UM IMPURO EM MEIO AOS
SANTOS. Suposto amante? Se o jornal disse, então é e ponto final! Nessas horas,
é cada um por si e Deus por todos – pobre Deus!
Por interesse, já no funeral, a própria viúva
denigre a história de seu marido na ideia de “antes ele ou os outros do que
EU!”. Todos ficam (ficam mesmo?) HORRORIZADOS com a utilização de vidas pela
mídia, todavia cada um que se salve como e enquanto puder.
O cotidiano de Arandir é posto em xeque. A
polícia e a mídia fazem uso de tudo para provar seu ponto (usar ou não a
aliança, o que fazia no centro, sua família...). Assim como no maravilhoso
livro “O Estrangeiro” de Albert Camus em que a sociedade toda condena Meursault
não por um assassinato, mas por seu papel na sociedade e pelos pontos mais
triviais e incompreendidos de sua existência, como não chorar por sua mãe
morta.
Selminha o ama de paixão, mas nega o beijo ao
“viúvo”. Vêm à tona, na família, os amores proibidos, condenados pela
sociedade. Aprígio não ousava falar o nome de Arandir por ciúme à filha? Por
que mais? Dália, a irmã mais nova de Selminha, esconde seus sentimentos vedados
por Arandir a ponto de se oferecer a ele em uma substituição quando Selminha
enfim se decide sobre QUEM VENCE: A MÍDIA OU O AMOR.
O ser humano SE ADAPTOU À SOCIEDADE, aprendeu
evolutivamente a seguir o bando e sobreviver como puder. Tal situação diária
não forma, mas EXPÕE OS DIFERENTES PERSONAGENS da peça, da vida.
Amado sobrevive do sensacionalismo; Cunha,
(do abuso) do poder; Selminha encobre suas frustrações e vive o (ou acredita,
ao menos, no) sonho de casamento perfeito e de dona de casa maravilhosa.
Aprígio guarda a sete chaves o que sente, assim como a filha Dália, EM NOME DE
UMA VIDA EM SOCIEDADE com respeito, sem julgamento, sem medo, vergonha ou ódio
vindo dos outros e de sua consciência (“feche os olhos que tudo desaparecerá”).
As pessoas vivem dos ATORES QUE LHES DIVERTEM
por uma curta porção de tempo: Cunha, Arandir, assassinatos, escândalos,
imoralidade. Queremos expor o que há de mais secreto em nós. Como se quiséssemos
que Arandir admitisse NOSSOS PECADOS e livrasse nosso âmago da culpa.
Arandir é o MÁRTIR das pessoas: aquele que
confessa os pecados da sociedade e é CRUCIFICADO, querendo ou não, em nome de
todos.
Dia após dia, vivemos, vendemos e compramos isso.
Como se desejássemos secretamente que Amado e Cunha parasitassem as pessoas –
para nós, desde que não nós – e REVELASSEM A IMORALIDADE E A MALDADE e, de tal
forma, passassem nossos crimes a um BODE EXPIATÓRIO.
Pronto, a justiça está feita, o mundo é lindo,
somos perfeitos... Excomunguem Arandir!
Arandir aprendeu a importância de todo o
mundo (que nem lhe conhece) acreditar em você. A opinião dos outros importa,
sim. Como sobreviver sem o bando? Porém, ele não aceita essa verdade.
“Ninguém acredita, mas eu! Eu acredito,
acredito em mim!”, esta é uma das últimas sentenças proferidas por Arandir na
peça, resistindo até o fim com pedaços de uma vida destroçada por meio da mídia
sensacionalista e corrupta. Não por ela, e sim por meio dela! No filme “O Quarto
Poder” de 1997, Sam Baily (John Travolta) também vê sua vida se perder em meio
a artigos de jornais e entrevistas para a televisão.
Recordo: NÃO PELA MÍDIA (QUARTO PODER), E SIM
POR MEIO DELA. Quem deu o golpe final em Arandir fomos NÓS - a SOCIEDADE, que
abençoou o sacrifício ou, ao menos, lavou as mãos. A inevitável tragédia partiu
de cada personagem, suas máscaras e feridas.
Permitimos que a vida seja manchete de jornal
e nos esquecemos de que a manchete é uma versão da história e QUE A VIDA VALE
MAIS DO QUE AS PALAVRAS QUE NOS DIVERTEM em uma manhã tediosa.
Seria essa a lição da peça? Não sei. Mas que
este artigo e esta obra sirvam à sua missão magna: fazer pensar, refletir,
discordar, acordar, amar viver e não ter medo de perguntar.






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