Ciência/Tecnologia
Colaboração de Fernando Alcoforado*
Este artigo apresenta a evolução do método científico que tem sido fundamental para
promover o avanço da ciência e, também, da tecnologia ao longo da história.
É importante observar que o método científico diz respeito a um aglomerado de
regras básicas de como deve ser o procedimento a fim de produzir conhecimento
científico, seja um novo conhecimento, seja uma correção ou um aumento de
conhecimentos anteriormente existentes. O método científico, portanto, nada
mais é do que a lógica aplicada à ciência. A busca por um método científico adequado pautou a ação de grande parte
dos pensadores dos séculos XVI e XVII destacando-se entre eles Galileu Galilei,
Francis Bacon, René Descartes e Isaac Newton, que com suas contribuições foram
decisivos para a estruturação daquilo que chamamos hoje de ciência moderna.
Além desses pensadores, foram importantes também as contribuições posteriores
de Hegel, Marx, Engels, Popper, Russell, Duhem, Poincaré, Morin, etc. Com este
artigo, damos continuidade à série de publicações relacionadas com a Ciência em
várias áreas do conhecimento que foi iniciada com o artigo A CIÊNCIA E OS AVANÇOS NO CONHECIMENTO
SOBRE O UNIVERSO. Nosso propósito é
o de compartilhar nosso conhecimento com todos os amigos que nos prestigiam
como leitores de nossos artigos e difundir a contribuição da Ciência ao
progresso da humanidade.
O método
científico diz respeito a um aglomerado de regras básicas de como deve ser o
procedimento a fim de produzir conhecimento científico, seja um novo
conhecimento, seja uma correção ou um aumento de conhecimentos anteriormente
existentes. Na maioria das disciplinas científicas, o método científico
consiste em juntar evidências empíricas verificáveis baseadas na observação
sistemática e controlada, geralmente resultantes de experiências ou pesquisa de
laboratório ou de campo e analisá-las com o uso da lógica. O método científico
nada mais é do que a lógica aplicada à ciência. A busca por um método
científico adequado pautou a ação de grande parte dos pensadores dos séculos
XVI e XVII destacando-se entre eles Galileu Galilei, Francis Bacon, René
Descartes e Isaac Newton, que com suas contribuições foram decisivos para a estruturação
daquilo que chamamos hoje de ciência moderna.
Galileu
Galilei (1564-1642) foi o primeiro teórico do método ou empírico que constitui
uma ruptura com o método aristotélico mais abstrato, que busca a essência
íntima das substâncias individuais. Devido a isso, Galileu é considerado o
"pai da ciência moderna". Para Galileu o objetivo das investigações
deve ser o conhecimento da lei que preside os fenômenos. Além disso, o foco
principal da ciência deve ser as relações quantitativas. A partir de 1623,
Galileu Galilei fundou a ciência moderna com a formulação do método científico
indutivo que é utilizado até hoje. O método de Galileu é conhecido como indução
experimental. Com Galileu, o estudo da natureza passou a ter uma abordagem
diferente da de Aristóteles quando a ciência passou a ser mais experimental do
que especulativa. Com o estabelecimento do método científico, quebrou-se o
paradígma aristotélico que prevalecia até então. As concepções científicas de
Aristóteles utilizava uma metodologia apenas formal e não empírica. Foi Galileu
o primeiro teórico do método experimental (PESSOA Jr., Osvaldo. Teoria do
Conhecimento & Filosofia da Ciência. São Paulo: USP, 2014. Disponível no
website < http://www.fflch.usp.br/df/opessoa/TCFC1-14.htm>).
A criação do
método científico é atribuída a René Descartes, mas tem suas raízes um pouco
mais profundas em dois pensadores de nomes semelhantes: Roger e Francis Bacon.
Roger Bacon (1220-1292) foi o primeiro a defender a experimentação como fonte
de conhecimento. Francis Bacon (1561-1626) foi, porém, quem terminaria por
fixar a base do que Descartes transformaria no moderno método científico. A
nova abordagem de Francis Bacon foi fortemente influenciada por descobertas de
cientistas como Copérnico e Galileu Galilei que o levaram a propor uma nova
abordagem da investigação científica através do pensamento indutivo em
contraposição ao pensamento dedutivo que desde Aristóteles predominava sobre as
ciências. Francis Bacon é considerado um dos fundadores da ciência moderna
sendo responsável por desenvolver o método empírico de pesquisa cientifica,
onde a razão fica subordinada a experimentação. Bacon propõem o raciocínio
indutivo ou indução, que vai do particular para o geral e onde o objetivo dos
argumentos é levar a conclusões cujo conteúdo é muito mais amplo do que o das
premissas nas quais se basearam (LAKATOS, E. M. e MARCONI, M. de A. Metodologia
científica. São Paulo: Atlas, 1991).
Foi na obra
Discurso do Método (Porto Alegre: L&PM POCKET, 2005) que René Descartes
(1596-1650) lançou de fato, os fundamentos do método científico moderno.
Descartes transcende o pensamento de Francis Bacon ao propor uma
instrumentalização da natureza, a explicação matemática e racional dos
fenômenos e das coisas e a sua mecanização. Descartes defendia a tese de que
basta compreender as partes para compreender o todo. O pensamento indutivo
proposto por Bacon sai de cena para dar lugar à dedução cartesiana onde as
experiências servem apenas para confirmar os princípios gerais delineados pela
razão. Segundo René Descartes, o método científico compreende duas abordagens
do conhecimento complementares: a empírica (indutiva) e a racional (dedutiva).
Na abordagem indutiva, empregada em ciências descritivas como biologia,
anatomia e geologia, extraem-se princípios gerais a partir da análise de dados
coligidos através da observação e da experimentação. As principais
características do método indutivo foram defendidas pelo inglês Francis Bacon,
que considerava os dados provenientes da experiência sensória como bases do
conhecimento. Na abordagem dedutiva, empregada na matemática e na física
teórica, as verdades são derivadas de princípios elementares. O método dedutivo
foi formulado no século XVII por René Descartes.
Em Discurso
do método (2005), sua principal obra, Descartes expressou seu desapontamento
com o saber de sua época. Grande parte daquilo em que ele acreditava se
revelara falso. Descartes resolveu então, buscar somente o conhecimento que
pudesse encontrar dentro de si mesmo ou na natureza. Empenhou-se em encontrar
uma verdade irrefutável que servisse como princípio elementar do conhecimento.
René Descartes considerava o método matemático como o caminho mais seguro para
se chegar ao conhecimento. Aplicando o raciocínio matemático aos problemas
filosóficos, podemos alcançar a mesma certeza e clareza evidenciadas na
geometria. O método dedutivo cartesiano complementa com perfeição a abordagem
indutiva de Bacon, que ressalta a observação e a experimentação. As realizações
cientificas dos tempos modernos tiveram origem na habilidosa sincronização dos
métodos indutivo e dedutivo.
Isaac Newton
(1643-1727) foi o grande sintetizador das obras de Copérnico, Kepler, Bacon,
Galileu e Descartes, desenvolvendo uma formulação matemática da concepção
mecanicista da natureza. A partir dele estava plenamente estabelecido o
paradigma mecanicista ou newtoniano-cartesiano. Com relação ao método
científico, Newton, agrega o método empírico-indutivo e o racionalista-analítico-dedutivo,
e vai além. Antes de Newton, duas tendências opostas orientavam a ciência: 1) o
método empírico, indutivo, representado por Bacon; e, 2) o método racional,
dedutivo, representado por Descartes. Ultrapassando Bacon em sua experimentação
sistemática e Descartes em sua análise matemática, Newton unificou as duas
tendências. Assim, estava montado o modelo de ciência que vigora até o presente
momento, que foi um dos grandes responsáveis pelos avanços e retrocessos, pelos
benefícios e malefícios que a sociedade moderna atual vive até o presente
momento. Foi Newton quem deu vida ao sonho de Descartes completando a Revolução
Científica.
Como a
ciência é um campo em constante mudança, o método científico de Descartes passa
a ser questionado no início do século XX, após as descobertas de Einstein sobre
a relatividade e de Niels Bohr sobre a física quântica que colocam em xeque um
dos preceitos fundamentais do modelo mecanicista de Descartes. Até o início do
século XX predominava na ciência o método científico baseado no modelo
mecanicista proposto por René Descartes em seu Discurso do Método (2005).
Entretanto as teorias da relatividade de
Albert Einstein (1879-1955) e a mecânica quântica de Niels Bohr (1885- 1962)
puseram em xeque alguns dos pilares do modelo cartesiano. As descobertas de
Einstein e Bohr provaram a impossibilidade de determinar até mesmo a realidade
dos resultados de uma observação, derrubando o preceito de que “para conhecer o
todo, basta conhecer as partes” ao demonstrar que muitos fenômenos não possuem
explicação se não encarados dentro de uma situação ou sistema e, sobretudo,
derrubaram o preceito de que o objeto é separado e independente do observador,
mostrando que o que conhecemos daquilo que acreditamos ser o objeto real é
apenas o resultado de nossa intervenção nele e não o objeto em si.
A nova
concepção mostrou também a impossibilidade de se estruturar conceitos
universais e absolutos uma vez que nosso próprio conhecimento é limitado,
resultando em uma mudança para um modelo onde existem apenas leis
probabilísticas. O modelo mecanicista de Descartes por muito tempo serviu aos
princípios a que se propunha e possibilitou o desenvolvimento de diversos
campos da ciência. Contudo, já ficou comprovada a insustentabilidade de certos
conceitos que eram considerados fundamentais pelo modelo cartesiano. Ao
formular a Teoria da Complexidade, Edgar Morin criticou o modelo mecanicista de
Descartes procurando ligar o que está separado. Segundo Morin, o conhecimento
científico, herdeiro do paradigma cartesiano produziu um pensamento redutor
ocultando as solidariedades, ’inter-retroações’, sistemas, organizações,
emergências, totalidades e suscitou conceitos unidimensionais, fragmentados e
mutilados do real. Por isso, em seus princípios, a racionalidade científica
também pode alimentar e comportar os “erros e cegueiras” do conhecimento.
Exemplo claro desses “erros e cegueiras” do conhecimento científico é não
dispor de mecanismos que possibilitem o reconhecimento da Incerteza em suas
verdades. A Teoria da Complexidade é herdeira do princípio da incerteza no
conhecimento científico. O “acaso” e a “incerteza”, portanto, configuram
categorias importantes dessa teoria e devem ser pensadas como elementos que
inauguram um novo olhar sobre os rumos da ciência no contexto do século XXI
(MORIN. Edgar. O Método 1, 2, 3, 4, 5,6 (Coleção). Porto Alegre: Editora
Sulina, 2005).
Uma das
questões que mais afligem ao ser humano, sem dúvida, diz respeito à busca da
verdade e, portanto, à validade da ciência. É sabido que a tarefa do cientista
consiste em delimitar as leis científicas e, para isso, deve adotar um método.
Desde Francis Bacon, a Ciência tem seguido o princípio de que para descrever
uma lei da natureza é preciso testar reiteradamente, colher e registrar os
resultados, aguardar que isso se repita com vários outros pesquisadores para,
então, ser considerada válida. Isto é, uma lei científica é válida quando a
comunidade científica, fundada em experiências particulares, colhe resultados
semelhantes ou pretensamente iguais repetidas vezes. Costuma-se chamar de
“indutiva” a uma inferência se ela passa de enunciados particulares, ou
experimentos, aos enunciados universais, tais como as hipóteses ou “teorias”.
Karl Popper (1902-1994) questiona que se possa passar de enunciados singulares
para universais com a certeza da verdade. Para começar a solucionar o problema,
os defensores da indução entendem ser necessário estabelecer um Princípio de
Indução, o qual possa garantir o processo (POPPER, Karl. Lógica da Investigação
Científica, in Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1975). Para Popper,
isso é impossível ou mesmo supérfluo, posto que esse Princípio não garante nada
uma vez que se funda no mesmo método inconsistente. Para ser válido, um Princípio
de Indução deveria ser universal e como o pesquisador parte sempre do singular,
isto não lhe permitiria chegar logicamente ao universal, segundo Popper (1975).
Para tentar
resolver esse problema, Popper estabeleceu o que ele mesmo denomina ”método dedutivo
de teste”. Para testar uma teoria, Popper segue quatro passos, ou espécies de
provas: 1º) Testes internos: buscam a coerência das conclusões extraídas a
partir do enunciado; 2º) Testes da forma: consiste nos testes para se saber se
a teoria é, de fato, uma teoria empírica ou científica ou meramente tautologia,
isto é, proposição analítica que permanece sempre verdadeira, uma vez que o
atributo é uma repetição do sujeito; 3º) Testes de inovação: verificação se a
teoria realmente é nova ou já está compreendida por outras existentes no
sistema; e, 4º) Testes empíricos: verificação da aplicabilidade das conclusões
extraídas da teoria nova. Estes são os principais testes, pois a teoria pode
passar incólume nos três passos anteriores e ser falseada pela aplicação
empírica de suas conclusões, caso em que a teoria não será considerada válida.
Para Karl
Popper a sustentação de uma teoria é sempre provisória posto que suas
conclusões serão sempre testadas empiricamente. Enquanto a teoria se sustentar,
nenhum progresso terá havido. Ao contrário, quando uma prova falsear a teoria
vigente, então a ciência evoluirá. Nesse sentido é que se deve, pois, sempre
buscar falsear a teoria e não confirmá-la, também porque a tentativa de
confirmação seria infinita, no tempo e no espaço. Dessa forma, Popper afirma
que uma teoria será mais válida quanto mais for falseável, ou seja, quanto mais
existirem possibilidades de ser falseada e, mesmo assim, ela continuar
respondendo aos problemas científicos. Uma vez propostas, as teorias
especulativas terão que ser comprovadas rigorosa e implacavelmente pela
observação e a experimentação. As teorias que não superam as provas observáveis
e experimentais devem ser eliminadas e substituídas por outras conjecturas
especulativas.
Segundo Popper,
a Ciência progride graças ao ensaio e ao erro, às conjecturas e refutações. O
método da ciência é o método de conjecturas audazes e engenhosas seguidas de
tentativas rigorosas de falseá-las. Só sobrevivem as teorias mais aptas. Nunca
se pode dizer licitamente que uma teoria é verdadeira, pode-se dizer com
otimismo que é a melhor disponível, que é melhor que qualquer das que existiam
antes. Segundo a falseabilidade, pode-se demonstrar que algumas teorias são
falsas recorrendo aos resultados da observação e da experimentação. Mas Popper,
ao tentar derrubar o método indutivo, criou também outro problema, qual seja, a
necessidade de um novo critério de demarcação entre o que é Ciência e o que não
é, pois até então o método indutivo era próprio da Ciência e o distinguia da
Metafísica, esta última, sabidamente especulativa. Em outras palavras, não se
delimita, tão somente pela indução, o que é e o que não é ciência, porquanto
qualquer pessoa, a mais leiga, pode elaborar um enunciado desse tipo. Logo, o
que demarca a Ciência da não ciência é a falseabilidade, como diz Popper.
Enfim, para Popper, é necessário o enunciado poder ser testado empiricamente,
não pela sua ’verificabilidade’, mas pela sua falseabilidade. Dessa forma, fica
evidenciada, claramente a derrubada do mito da verdade científica, sobretudo
pela insuficiência de seus métodos, o que deve nos levar à reflexão acerca das
soluções científicas.
Bertrand
Russell (1872-1970) se preocupou em examinar, do mesmo modo que David Hume
(1711-1776), se a repetição de um fenômeno, num dado número de experiências no
passado, constitui ou não uma garantia de sua ulterior ocorrência no futuro.
Russell (1989) formulou duas outras questões: (a) as experiências passadas são
a fonte de nossas expectativas futuras? (b) Como justificar tais expectativas?
Russell pergunta: a constatação de um determinado número de ocorrências de uma
lei sendo satisfeita no 5 passado fornece evidência de que a mesma lei
continuará a ser satisfeita no futuro? O pensador inglês sustenta que à medida
que os mesmos eventos se repetem, sua ocorrência no futuro tornar-se-á mais
provável. Assim sendo, sua argumentação inclinasse a substituir a justificação
da indução pela justificação da probabilidade da indução. Nossa experiência com
a natureza tem demonstrado até agora, nos diz Russell (aqui em estrita
consonância com Hume), que a frequente repetição de uma sucessão ou
coexistência de eventos tem sido a causa de esperarmos que a mesma a sucessão
ou coexistência de eventos continue a ocorrer no futuro. O simples fato de que
alguma coisa aconteceu certo número de vezes causa nos animais e nos homens a
expectativa de que acontecerá novamente (RUSSELL, Bertrand. Les problems de
philosophie. Paris: Payot, 1989).
O que
Russell, pois, questionou é a pertinência ou não de nossa convicção sobre a
regularidade permanente entre passado e futuro, que se baseia na constatação de
que o futuro continuamente se converteu em passado, tendo sempre terminado por
ser similar ao passado, de modo que se possa afirmar a presença de uma
experiência de futuro em nossa percepção, em termos mais precisos, de tempos
que formalmente foram futuro, e que podemos denominar, nos servindo da
terminologia empregada por Russell, de futuros passados. O recurso à
experiência poderia embasar o raciocínio indutivo no que diz respeito a
exemplos já examinados. No que tange, entretanto, a casos futuros, somente a
crença no princípio indutivo poderia, obviamente sem qualquer apelo à
experiência, justificar qualquer inferência que ateste a regularidade entre o
já observado e o inobservado. Russell afirma que o raciocínio dedutivo
efetivamente não nos faculta a possibilidade de formular previsões sobre
ocorrências futuras, na medida em que seus enunciados necessariamente derivam
de generalizações já estabelecidas.
Pierre Duhem
(1861-1916), físico francês e historiador da ciência, afirma que a ciência,
longe de poder provar suas asserções por meio de uma derivação lógica de
princípios auto evidentes, tem como seu método derivar predições empíricas de
suas teorias e compará-las com o que é observado. Por esse método, porém,
nenhuma teoria pode ser estabelecida definitivamente, pois sempre é possível
que mais de uma teoria se ajuste satisfatoriamente aos dados empíricos. Ou
seja, para qualquer conjunto de dados observacionais, um número indefinido de
teorias pode ser adequado a ele. Duhem (2003) afirma que o método experimental
não pode transformar uma hipótese da Física numa verdade incontestável porque
não se pode jamais estar certo de que se tenham esgotado todas as hipóteses
imagináveis que podem se aplicar a um grupo de fenômenos (DUHEM, Pierre. Sauver
les apparences. Paris: Vrin, 2003).
Por sua vez,
Henri Poincaré (1854-1912), matemático, físico e filósofo da ciência francês e
Albert Einstein (1879-1955), físico teórico alemão, apesar das significativas
divergências de suas respectivas filosofias do conhecimento científico tinham
em comum a convicção de que as ideias científicas, na elaboração das teorias
físicas e matemáticas, são construções livres do pensamento. Neste sentido,
entendiam que elas não são induzidas de maneira lógica e unívoca, necessária e
compulsória, a partir dos dados da experiência e, além disso, que elas não
estão inscritas numa estrutura inata ou a priori do pensamento. É nesse espaço
de liberdade que entra a ideia da criação no trabalho científico que conduz à
descoberta. Da maneira mais clara, Poincaré e Einstein, ambos insistiram nesse
aspecto que era, para eles, a característica mais importante da atividade do
conhecimento, e que se situava efetivamente no centro de suas epistemologias.
Segundo
Henri Poincaré (1995), a ciência nada pode nos ensinar sobre a verdade, só pode
nos servir como regra de ação. Nessa perspectiva, a ciência não seria mais que
uma regra de ação, pois seríamos impotentes para conhecer o que quer que seja
e, contudo, como precisamos agir firmamos regras. É o conjunto dessas regras
que chamamos ciência. Quase todos os filósofos da ciência contemporâneos
chegaram à conclusão de que a ciência não pode descrever literalmente um mundo
inobservável de partículas microscópicas e ondas intangíveis. E uma quantidade
significativa de filósofos da ciência chegou à conclusão de que a ciência não
pode ser bem-sucedida nesse objetivo uma vez que está além do alcance da
percepção humana. Todos os filósofos da ciência contemporâneos aceitam que as
teorias científicas visam retratar literalmente um mundo inobservável e
concluem que, por essa razão seria um erro, acreditar em quaisquer teorias
científicas (POINCARÉ, Henri. Science et hipothèse. Paris: Flammarion, 1902).
Além dos
métodos indutivo, dedutivo, hipotético- dedutivo segundo Popper, é utilizado
também o método dialético que, aplicado às ciências sociais, é uma forma de
analisar a realidade a partir da confrontação de teses, hipóteses ou teorias. A
dialética é a investigação através da contraposição de elementos conflitantes e
a compreensão do papel desses elementos em um fenômeno. O pesquisador deve
confrontar qualquer conceito tomado como “verdade” com outras realidades e
teorias para se obter uma nova conclusão, uma nova teoria. Assim, a dialética
não analisa o objeto estático, mas contextualiza o objeto de estudo na dinâmica
histórica, cultural e social. A argumentação dialética foi usada também na
metafísica, sendo sistematizada pelo pensador idealista alemão Friedrich Hegel,
expoente da filosofia clássica alemã, que identificou três momentos básicos no
método dialético: a tese (uma ideia pretensamente verdadeira), a antítese (a
contradição ou negação dessa tese) e a síntese (o resultado da confrontação de
ambas as ideias). A síntese se torna uma nova tese e o ciclo dialético
recomeça.
Os métodos
específicos das ciências sociais são: 1) o indutivo que, a partir da ocorrência
dos fenômenos são originadas as leis e teorias; 2) o dedutivo que a partir das
teorias e leis tem-se a ocorrência dos fenômenos; 3) o hipotético-dedutivo que
formula hipóteses e testa a ocorrência de seus fenômenos; 4) o dialético que
analisa elementos conflitantes; 5) o histórico que investiga o passado para
relacionar sua influência nos fenômenos do presente; 6) o comparativo que é
utilizado para verificar semelhanças e explicar divergências; 7) o monográfico
que estuda determinado grupo de fatores para obter generalizações; 8) o
estatístico que tem como objetivo a análise de conjuntos complexos para,
através disto, estabelecer as relações entre si e fornecer uma descrição
quantitativa deste grupo em estudo; 9) o tipológico que serve como modelo para
a realização de análises e para a compreensão de casos existentes; 10) o
funcionalista que é um método de interpretação que tem como objetivo o estudo
de um determinado grupo através de seu sistema de organização; 11) o
estruturalista que é utilizado para analisar a realidade concreta de diversos
fenômenos; 12) o etnográfico que tem como foco principal a análise dos aspectos
culturais de determinado grupo da sociedade; e, 13) o clínico que é utilizado
em estudos de caso e possui intervenção psicopedagógico com uma relação íntima
entre pesquisador e pesquisado e pode ser de âmbito qualitativo ou
quantitativo.
*Fernando Alcoforado, 76, membro da Academia Baiana de
Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento
Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor
nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento 7
regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros
Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a
Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o
Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento
do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de
Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e
Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do
Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA,
Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social
Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller
Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global
e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010), Amazônia
Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena-
Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores
Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba,
2012) e Energia no Mundo e no BrasilEnergia e Mudança Climática Catastrófica no
Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015). Possui blog na Internet
(http://fernando.alcoforado.zip.net). E-mail: falcoforado@uol.com.br

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