Ciência
Colaboração de Fernando Alcoforado*
Apoiado nas leis da Física newtoniana
descritas por meio de equações diferenciais, os cientistas acreditaram durante
muito tempo que a natureza era determinista sabendo que com base nelas, era
possível prever todos os fenômenos. Por volta da virada do século XIX para o
século XX, os avanços nas ciências naturais e da matemática colocaram sérias
dúvidas sobre a validade da visão mecanicista newtoniana. A Mecânica Quântica
colocou em xeque a visão de mundo determinista introduzindo o princípio da
incerteza. No enfoque determinista tradicional, a incerteza era vista como
resultado da ignorância das diferentes causas envolvidas na realização de um
evento, bem como da complexidade do mesmo.
A Teoria do
Caos ou a nova Ciência da Complexidade sugere que o mundo não deve seguir
rigorosamente o modelo determinista newtoniano, previsível e certo, porque tem
aspectos caóticos. O observador não é quem cria instabilidade ou
imprevisibilidade devido a sua ignorância porque estes fenômenos existem na
natureza. Um exemplo típico é o clima. Os processos da realidade dependem de um
enorme conjunto de circunstâncias incertas, que determinam, por exemplo, que
qualquer pequena mudança em uma parte do planeta, haverá nos próximos dias ou
semanas um efeito considerável sobre a outra parte da Terra. A Teoria do Caos
ou a Ciência da Complexidade representou um dos grandes avanços na pesquisa
científica do século XX terminando com a dicotomia que existia no enfoque
determinista tradicional entre determinismo e aleatoriedade (MURPHY, Robert. La
teoria del Caos. Madrid: Union Editorial, 2012 e BORN, Max, AUGER, Pierre,
SCHRÖDINGER, Erwin e HEISENBERG, Werner. Problemas da Física Moderna. São
Paulo: Editora Perspectiva, 2011).
Em 1908, o
matemático francês Henri Poincaré (1854-1912), que havia estudado os sistemas
matemáticos não lineares chegou a conclusões que, ao longo do tempo, seriam
importantes para conceituar a Teoria do Caos. Poincaré afirmou que, se
soubermos exatamente as leis naturais que governam a evolução do Universo,
podemos prever exatamente sua situação em qualquer momento posterior do tempo,
mas como nunca podemos saber exatamente o estado inicial do Universo sempre
estaria cometendo um erro para defini-la. Em outras palavras, o estado inicial
do Universo só pode ser conhecido com alguma aproximação. Mesmo admitindo que
pudéssemos determinar as leis que regem a sua evolução, a nossa previsão de
qualquer estado posterior também seria aproximada (POINCARÉ, Henri. Science et
method. Paris: Flammarion, 1918).
O “problema
de três corpos” foi um dos grandes problemas estudados pelo grande matemático
francês Henri Poincaré no século XIX. Poincaré, ao embrenhar-se na complexidade
do problema considerado, tornou-se, sem ter consciência disso, o pai da moderna
Teoria do Caos (DE RERUM NATURA. O problema dos três corpos e o caos. Disponível
no website ). Até então, aproximar as previsões não seria atribuível à
existência do caos na realidade, mas uma limitação no nosso conhecimento das
condições iniciais. Henri Poincaré percebeu em seus estudos pioneiros nesse
campo que não são necessários sistemas complexos para produzir aleatoriedade.
Os estudos de Poincaré são atualizados na década de 1960 graças ao matemático e
meteorologista norte-americano Edward Lorenz. Sua perplexidade teve muito a ver
com a incapacidade de prever eventos climáticos além de certo número de dias.
No início da década de 1960, Lorenz começou a desenvolver um modelo matemático
para prever fenômenos atmosféricos, e por acaso descobriu que a mesma
ferramenta matemática utilizada produzia diferenças inesperadas e imprevisíveis
no resultado ao simular pequenas mudanças nas condições iniciais.
No Século
XX, o determinismo científico criado pelas Ciências Clássicas entrou em crise
porque a imprevisibilidade passou a ser objeto de estudo científico sério
quando o meteorologista americano Edward Lorenz descobriu em 1960 que fenômenos
aparentemente simples têm um comportamento caótico. Ele chegou a essa conclusão
ao testar um programa de computador que simulava o movimento de massas de ar.
Um dia, Lorenz teclou um dos números que alimentava os cálculos da máquina com
algumas casas decimais a menos, esperando que o resultado mudasse pouco. Mas a
alteração insignificante transformou completamente o padrão das massas de ar.
Estava fundada a Teoria do Caos. Com o tempo, cientistas concluíram que a mesma
imprevisibilidade aparecia em quase tudo, do ritmo dos batimentos cardíacos às
cotações da Bolsa de Valores. A partir da década de 1960, a Teoria do Caos
eliminou a fantasia laplaciana de previsibilidade determinista. A ideia central
da Teoria do Caos é a de que uma pequenina mudança no início de um evento
qualquer pode trazer consequências enormes e absolutamente desconhecidas no
futuro. Por isso, tais eventos seriam praticamente imprevisíveis - caóticos,
portanto. A ciência descobriu que sistemas que obedecem leis imutáveis e
precisas nem sempre atuam de forma previsíveis e regulares. Leis simples podem
não produzir comportamentos simples e vice-versa (MURPHY, Robert. La teoria del
Caos. Madrid: Union Editorial, 2012).
Os esforços
de Poincaré e Lorenz se somaram às contribuições de Benoit Mandelbrot
(engenheiro de comunicações), Edward Feigenbaum (matemático), Libchaber
(físico), Winfree (biólogo), Mandell (psiquiatra) e outros. Segundo a Teoria do
Caos ou a Ciência da Complexidade, o caos é uma "mistura" de desordem
e ordem que nascem de novas estruturas, chamadas estruturas
"dissipativas" (PRIGOGINE, Ilya. As leis do caos. São Paulo: Editora
da UNESP, 2002). A Teoria do Caos sugere que o Universo tem um ciclo de ordem,
desordem, ordem, e assim sucessivamente. De modo que uma leva a outra e assim
por diante, talvez indefinidamente. Uma das principais implicações da Teoria do
Caos tem a ver com o retorno gerado em situações caóticas, isto é, os
“feedback” negativo e positivo. O “feedback” negativo tende a corrigir um
desvio, levando o sistema ao seu estado original. Tais processos se opõem à
mudança, uma vez que sempre olham para trás para voltar a um estado anterior.
Por outro lado, o “feedback” positivo promove a mudança, a formação de novas
estruturas, mais sofisticadas, mais adaptáveis, mais sutis. Na medida em que
implica a criação de uma nova estrutura, os processos são irreversíveis, ao
contrário do “feedback” negativo, que tendendo para o estado original, é
reversível.
Exemplificando
o “feedback” negativo: se estamos a caminhar no deserto em direção a um
objetivo distante, devemos, de vez em quando, corrigir nosso curso, corrigindo
nosso desvio do alvo através de atualizações regulares sobre o nosso caminho.
Mas se cometermos um erro de um milímetro do alvo, com o tempo o erro será
ampliado mais e, eventualmente, chegaremos a um lugar longe da meta. No
“feedback” negativo procuramos corrigir os desvios para retornar ao caminho
original. No “feedback” positivo, pequenas mudanças podem induzir a grandes
mudanças que levam a novas metas desconhecidas, talvez melhor, embora não
possamos prever exatamente onde é que chegaremos. Enquanto a ciência clássica
centrada na estabilidade, no determinismo, enfatiza o processo de “feedback” negativo
que tende a reduzir a mudança, retornando o sistema à sua posição de
equilíbrio, o “feedback” positivo promove a mudança.
Exemplo de
“feedback” positivo: a inovação tecnológica cria um novo negócio e a presença
deste, por sua vez, estimula a geração de mais inovações. Isto explica como
pequena mudança gera grande mudança final (efeito borboleta). O progresso para
existir requer instabilidade (flutuações) para que pequenos eventos sejam
ampliados fato este que só é possível em uma situação de não equilíbrio. O
progresso para existir requer a instabilidade, a irreversibilidade e a
possibilidade de dar sentido a pequenos eventos para que uma mudança estrutural
ocorra. A irreversibilidade (flutuações) torna possíveis coisas que seriam
impossíveis em um estado de equilíbrio e proporciona uma lei construtiva importante, a origem de um novo estado e suas
estruturas derivadas altamente complexas e sofisticadas. Uma vez que o processo
resulta na criação de uma estrutura complexa, a estrutura de dissipação, um
novo ciclo de desequilíbrio ocorre e o caos recomeça onde ocorrem novas
instabilidades ou flutuações.
Sistemas
Dinâmicos e o “Feedback” Positivo Fonte: Ervin Laszlo. O Ponto do Caos. São
Paulo: Editora Cultrix, 2006.
A Figura 1
mostra o que acontece com um sistema dinâmico com uma velha estrutura quando
está sujeito a instabilidade ou “flutuações” que o leva a um ponto de
bifurcação a partir do qual o sistema alcança uma nova estabilidade dinâmica
(avanço revolucionário) com uma nova estrutura ou entra em colapso, segundo
Ervin Laszlo (LASZLO, Ervin. O Ponto do Caos. São Paulo: Editora Cultrix,
2006). A Figura 2 mostra que no ponto de bifurcação o sistema tem que ser
reestruturado ou entrará em colapso. O Caos se refere principalmente a algo que
evolui ao longo do tempo. A Teoria do Caos explica o funcionamento de sistemas
complexos e dinâmicos como, por exemplo, os sistemas econômicos e o clima.
Nesses sistemas, inúmeros elementos estão em interação de forma imprevisível e
aleatória. Cabe observar que Ilya Prigogine, comentando sobre pontos de
bifurcação em reações químicas, afirma que “elas demonstram que até mesmo em
nível macroscópico a nossa predição do futuro mistura determinismo e
probabilidade. No ponto de bifurcação, a predição tem caráter probabilístico,
ao passo que entre os pontos de bifurcação, podemos falar de leis
deterministas” (PRIGOGINE, I. As leis do caos. São Paulo: Editora da UNESP,
2002).
É oportuno
observar que o caos está presente em uma ampla variedade de disciplinas da
ciência. A pesquisa sobre o caos começou na década de 1970. Fisiologistas
começaram a investigar por que o caos de batimentos cardíacos normais produzia
uma parada cardíaca súbita, ecologistas analisaram como determinados locais do
planeta sofreram mudanças aleatórias na natureza, engenheiros procuraram
descobrir as causas do comportamento às vezes errático dos osciladores,
químicos analisaram as causas das flutuações inesperadas nas reações dos
produtos químicos e os economistas Estabilidade Dinâmica Nova estrutura Início
de Flutuações Estado do sistema Tempo Colapso 3 2 1 Flutuações Instabilidade
(Crises) Avanço Revolucionário Estabilidade dinâmica Velha estrutura Ponto de
Bifurcação ou de Mudança Irreversível 4 tentaram detectar algum tipo de ordem
em mudanças inesperadas nos preços, etc. Na ciência clássica, o acaso era um
intruso, mas a Teoria do Caos tornou-se sócia da incerteza.
A Teoria do
Caos ou a Ciência da Complexidade apresenta uma perspectiva interessante do
ponto de vista de sua aplicação à economia principalmente na explicação de
fenômenos que parecem ter um comportamento disruptivo. Por trás da aparente
desordem na economia, há uma dinâmica que pode ser explicada através de
técnicas matemáticas e estatísticas apropriadas, típicas desta teoria. Em sistemas
dinâmicos, como a economia, que mudam constantemente ao longo do tempo,
pequenas alterações em um determinado momento, pode ser a causa de grande
importância no futuro. A crise mundial que eclodiu em 2008 nos Estados Unidos
produziu várias consequências que se manifestam até hoje. Considerando que a
economia capitalista é um sistema dinâmico, não linear e complexo, a
dificuldade de planejar e antecipar problemas exige a consideração das
perspectivas de desenvolvimento de longo prazo. Significa que é preciso
planejar a economia reconhecendo que o caos e a complexidade estão presentes e
que deve lidar com este cenário da melhor maneira possível.
Ervin Laszlo
defende a tese de que os sistemas entram em um estado de caos quando flutuações
que eram, até então, corrigidas por realimentações negativas (“feedback”
negativo) auto estabilizadoras ficam fora de controle. A trajetória de
desenvolvimento torna-se não linear: tendências predominantes colapsam e em seu
lugar surgem vários desenvolvimentos complexos. Raramente o caos é uma condição
prolongada. Na maior parte dos casos, é apenas uma época transitória entre
estados mais estáveis. Quando as flutuações no sistema atingem níveis de
irreversibilidade, o sistema atinge um ponto crítico em que ele colapsa em seus
componentes individuais estáveis ou passa por uma evolução rápida em direção a
um estado resistente às flutuações que o desestabilizaram (avanço
revolucionário ou “feedback” positivo). Se o caminho do “feedback” positivo ou
de avanço revolucionário é selecionado, o sistema evolui para um estado no qual
ele tem uma capacidade de processamento de informação intensificada e maior
eficiência no uso da energia livre, bem como mais flexibilidade, maior
complexidade estrutural e níveis de organização adicionais.
A opinião de
Ervin Laszlo é a de que “um sistema dinâmico, quer ocorra na natureza, na
sociedade ou em uma simulação de computador, é governado por atratores. Estes
definem ‘o retrato de fase’ do sistema: a maneira como ele se comporta ao longo
do tempo. Atratores estáveis puxam a trajetória do desenvolvimento do sistema
para dentro de um padrão recorrente e reconhecível, levando-o a convergir em um
dado ponto (se o sistema for governado por atratores pontuais) ou a descrever
ciclos através de diferentes estados (quando ele está sob o comando de
atratores periódicos). No entanto, sistemas dinâmicos também podem alcançar um
estado em que os atratores que emergem não são estáveis, mas ‘estranhos’. São
os atratores caóticos”. Cabe observar que um atrator é o conjunto de pontos no
espaço de fase para o qual um sistema tende a ir à medida que evolui. O atrator
pode ser um único ponto, uma curva fechada (ciclo limite) que descreve um
sistema de comportamento periódico, ou um fractal (também chamado de atrator estranho),
quando o sistema apresenta caos. Em sistemas caóticos o movimento nunca se
repete, apesar de muitas vezes ter que ocorrer dentro de certos limites. Assim,
somente uma figura infinitamente complexa - um fractal - pode dar conta de
representar esta trajetória que nunca se repete no espaço de fase. Mudança e
Tempo são os dois aspectos fundamentais do Caos.
Um campo de
estudo que tem recebido atenção recentemente nos estudos organizacionais é a
área da Teoria do Caos e da Ciência da Complexidade. Enfoques dinâmicos para
gerenciamento estratégico estão sendo desenvolvidos. Organizações estão sendo
consideradas como sistemas não lineares, complexos, dinâmicos, que não evoluem
de uma maneira previsível, estável. Estas ideias impactam no campo de sistemas
de informação. Enquanto os conceitos da Teoria do Caos podem proporcionar
alguma ajuda na explicação dos sistemas de informação nas organizações, é
difícil identificar sua 5 aplicabilidade na previsão ou no provimento de
princípios generalizáveis haja vista que a aparente imprevisibilidade é parte
da natureza da Teoria do Caos (THOMPSOM, J. M. T & STEWART, H. B. Nonlinear
Dynamics and Chaos. Chichester: John Wiley & Sons, 1986).
O conceito
de Caos sugere uma falta de organização, uma desordem na qual incerteza e
imprevisibilidade predominam. Este pareceria um campo estranho de estudo para
unificar-se com sistemas de informação que estão predominantemente preocupados
com a ordem. Entretanto, Caos refere-se ao que pode ser chamado de desordem
ordenada. A ideia de Caos é casada com a de Complexidade. Sistemas complexos
podem exibir comportamento caótico, o que não é uma falta de ordem, mas ordem
de uma complexidade que é difícil ou impossível de descrever em termos simples,
que não pode ser resolvida com equações simples, que requer narrativa complexa
para descrevê-la (PRIGOGINE, Ilya and STENGERS, Isabelle. Order Out of Chaos.
Available on the website 19841984). As ciências clássicas que, no passado, nos
ofereceram uma série de métodos para entender a realidade e construir modelos
econômicos e organizacionais já não atendem as necessidades da era
contemporânea. Vivemos e trabalhamos num mundo que não pode mais ser analisado
com base nos conceitos da mecânica de Newton, no racionalismo de Descartes e no
determinismo de Laplace.
*Fernando Alcoforado, 76, membro da Academia Baiana de
Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento
Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor
nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento
regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros
Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a
Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o
Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento
do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de
Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e
Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do
Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA,
Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social
Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller
Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento
Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010),
Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento
global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os
Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV,
Curitiba, 2012) e Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática
Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015). Possui blog na
Internet (http://fernando.alcoforado.zip.net). E-mail: falcoforado@uol.com.br.

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