Literatura: crônica
Por Mariana
Keller
”A jornalista
que escolheu a profissão para poder viajar pelo mundo fazendo reportagens, mas
que por enquanto, viaja apenas com as próprias palavras escritas. Se acha velha
demais para fazer tudo o que tem vontade, mas na verdade, é nova demais para
tantas crises. Adora as coisas simples da vida e atualmente, o que mais a deixa
feliz é um passeio de bicicleta.”
“As pessoas, as cidades, o
mundo está cheio de gente fechada, não só pela arquitetura, mas pessoas
fechadas em si, em sua solidão, em seu mundo. Pessoas que foram “construídas”
como medianeiras, paredes sem janela, vida sem abertura para o novo”.
Em uma época em que as pessoas, ao mesmo
tempo, se aproximam e se afastam através da internet, como ficam as relações
humanas? Como encontrar a pessoa certa no meio de uma cidade com centenas de
habitantes? Seria a internet um meio facilitador ou apenas algo que nos dá a
falsa sensação de que não estamos sós?
É partindo de questionamentos como esses
que Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual (Medianeras,
no original) retrata os relacionamentos atuais e a dificuldade do encontro
diante da multidão.
É exatamente o que acontece com Martín
(Javier Drolas) e Mariana (Pilar López de Ayala). Ele é um criador de sites
cheio de fobias, que perdeu o estímulo de viver e passa o dia inteiro em frente
ao computador. É fã de Guerra nas Estrelas e de Astro
Boy e vive sozinho em seu apartamento com a cadela da ex-namorada, que
o abandonou. Ela é uma arquiteta, que trabalha como vitrinista, e também
enfrenta um término recente com uma pessoa completamente diferente dela e ainda
tenta lidar com a frustração de nunca ter exercido efetivamente a sua
profissão. Tem fobia de elevador e seu livro preferido é Onde Está o
Wally?.
Eles moram na mesma quadra, gostam das mesmas
coisas, frequentam os mesmos lugares, passam sempre um do lado do outro na rua,
mas nunca se reparam. Até que em mais um dia de tédio, os dois acabam
conversando virtualmente sem nunca imaginar o quão perto estão um do outro.
No meio de tanto desencontro, a cidade de
Buenos Aires aparece como algo a mais do que um simples cenário, se tornando
quase que uma terceira protagonista. Vemos prédios de todos os tipos, alturas e
formatos. Ruas frias, cantos inexplorados e a arquitetura envolvente e urbana
ajudam a narrar a história e nos atentam para as inúmeras vidas escondidas
atrás das paredes de cada edifício.
E aí surge o conceito do título. Medianera é
aquele lado dos edifícios, geralmente nos fundos ou nas laterais, que não tem
janelas. Uma parede lisa, ocupada, muitas vezes, por propaganda. Um local
despercebido, abandonado, fechado. O que reflete essa prisão sufocante das
cidades, que os personagens tentam combater.
O longa é dirigido pelo argentino Gustavo
Taretto e nasceu de um curta de 2005 escrito e dirigido também pelo próprio
diretor. Através de seus personagens, o filme nos remete imediatamente a atual
conjura em que vivemos. Pessoas imersas em si mesmas e presas em seus medos e
traumas, que mal enxergam quem está a sua volta e que apelam para os desabafos
nas redes sociais.
Através de uma inteligente metáfora com o
livro do Wally, surge o principal questionamento do filme indagado
por Mariana: “Então me pergunto: Se, mesmo sabendo quem eu procuro, não consigo
achar… Como vou achar quem eu procuro se nem sei como é?”. E isso vale tanto
para o amor, quanto para a busca de nós mesmos. O que queremos para nossas
vidas? Quais são as nossas verdadeiras vontades? Como encontrar nós mesmos no
meio de tantas influências e vontades alheias?
E o mais interessante é que justamente o
único lugar que ela nunca consegue achar o Wally é na cidade.
Reforçando a ideia do contraste entre o coletivo e o individual presente nas
cidades grandes e a crítica ao individualismo, fruto da modernidade.
Isso nos leva a mais questionamentos. Será
que a modernidade está nos tornando pessoas frustradas, que mesmo cheios de desejos
e vontades, não temos mais força e ânimo para levantar e correr atrás deles?
Enchendo de esperança os corações mais
desacreditados no amor e nas reviravoltas da vida com um belo e criativo
final, Medianeras nos mostra que a solução para essa inércia
interna é justamente a identificação com o outro e que a graça da vida é a
procura por aquele alguém que carrega sem querer um pedacinho da gente. Mas,
para isso acontecer, é essencial abrirmos uma janelinha nas medianeras de
nossas vidas.






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