sexta-feira, 14 de junho de 2013

CANTO DO CONTO | MOACYR SCLIAR – “NÓS, O PISTOLEIRO, NÃO DEVEMOS TER PIEDADE”

                                                                                           
   Prólogo por João Vitor


Primeiro, agradeço ao Gustavo a chance de assumir o Canto do Conto, coluna que namoro há algum tempo (sou desses mesmo). O gênero sempre me fascinou pelas suas características intrínsecas e poder estético, aspectos realmente muito claros. Para mostrar do que estou falando, escolhi começar com este conto. Mas, antes, uma pequena exposição biográfica sobre o autor.
Moacyr Scliar nasceu em 1937, no Bom Fim. Era filho de imigrantes judeus, algo que marcou sua vida e sua obra – escreveu exaustivamente sobre a comunidade judaica e suas relações com o Brasil. Formou-se em Medicina e atuou como médico sanitarista, tendo sido também doutor e professor universitário. Mas sua principal contribuição é no campo da literatura. Scliar publicou mais de setenta livros, um número surpreendente. Não é de se admirar que alguns de seus livros não tenham tanta qualidade. Esses, porém, são raros. Grandes obras como “O centauro no jardim”, “O Exército de um Homem Só” e “Um mês de cães danados” compensam, e muito, as poucas linhas de má qualidade que ele produziu.

Scliar também passeou pela literatura juvenil, com sucesso. Aliás, conheci sua obra ainda muito novo, com o romance “Um sonho num caroço de abacate”, que trata de modo bonito e comovente do preconceito étnico e racial contra judeus e negros. Uma leitura que sempre recomendarei, para todas as idades.
Além do romance, Scliar escreveu crônicas durante vários anos e, também, contos. Seus contos são, em geral, muito curtos, e mostram bastante bem o que Poe quis dizer quando acentuou a importância do tamanho da obra para o efeito no leitor (sobre a teoria do conto de Poe, ler o artigo do nosso querido Gustavo Magnani na segunda edição da Revista Literatortura). Para citar mais um grande nome do conto, Cortázar dizia que, se o romance vencia o leitor por pontos, o conto vencia-o por nocaute. Veremos, com a história que eu trouxe hoje, que Scliar nocauteia com destreza os que o leem.
“Nós, o pistoleiro, não devíamos ter piedade” consta no livro Carnaval dos animais, que é muito bom. Mas este conto, especificamente, é estonteante. Um dos meus preferidos, sem dúvida alguma.
Recomendo, agora, a leitura do conto, e, para os que se interessarem, que leiam meus comentários sobre. Digo isso porque não quero estragar o efeito da obra sobre vocês com comentários prévios. Melhor que leiam o conto e depois me leiam, para concordarem, ou discordarem, do que digo, e verem se faz algum sentido. Abaixo, o conto na íntegra.

NÓS, O PISTOLEIRO, NÃO DEVEMOS TER PIEDADE


Nós somos um terrível pistoleiro. Estamos num bar de uma pequena cidade do Texas. O ano é 1880. Tomamos uísque a pequenos goles. Nós temos um olhar soturno. Em nosso passado há muitas mortes. Temos remorsos. Por isto bebemos.
A porta se abre. Entra um mexicano chamado Alonso. Dirige-se a nós com despeito. Chama-nos de gringo, ri alto, faz tilintar a espora. Nós fingimos ignorá-lo. Continuamos bebendo nosso uísque a pequenos goles. O mexicano aproxima-se de nós. Insulta-nos. Esbofeteia-nos. Nosso coração se confrange. Não queríamos matar mais ninguém. Mas teremos de abrir uma exceção para Alonso, cão mexicano.
Combinamos o duelo para o dia seguinte, ao nascer do sol. Alonso dá-nos mais uma pequena bofetada e vai-se. Ficamos pensativo, bebendo o uísque a pequenos goles. Finalmente atiramos uma moeda de ouro sobre o balcão e saímos. Caminhamos lentamente em direção ao nosso hotel. A população nos olha. Sabe que somos um terrível pistoleiro. Pobre mexicano, pobre Alonso.
Entramos no hotel, subimos ao quarto, deitamo-nos vestido, de botas. Ficamos olhando o teto, fumando. Suspiramos. Temos remorsos.
Já é manhã. Levantamo-nos. Colocamos o cinturão. Fazemos a inspeção de rotina em nossos revólveres. Descemos.
A rua está deserta, mas por trás das cortinas corridas adivinhamos os olhos da população fitos em nós. O vento sopra, levantando pequenos redemoinhos de poeira. Ah, este vento! Este vento! Quantas vezes nos viu caminhar lentamente, de costas para o sol nascente?
No fim da Rua Alonso nos espera. Quer mesmo morrer, este mexicano.
Colocamo-nos frente a ele. Vê um pistoleiro de olhar soturno, o mexicano. Seu riso se apaga. Vê muitas mortes em nossos olhos. É o que ele vê.
Nós vemos um mexicano. Pobre diabo. Comia o pão de milho, já não comerá. A viúva e os cinco filhos o enterrarão ao pé da colina. Fecharão a palhoça e seguirão para Vera Cruz. A filha mais velha se tornará prostituta. O filho menor ladrão.
Temos os olhos turvos. Pobre Alonso. Não se devia nos ter dado suas bofetadas. Agora está aterrorizado. Seus dentes estragados chocalharam. Que coisa triste.
Uma lágrima cai sobre o chão poeirento. É nossa. Levamos a mão ao coldre. Mas não sacamos. É o mexicano que saca. Vemos a arma na sua mão, ouvimos o disparo, a bala voa para o nosso peito, aninha-se em nosso coração. Sentimos muita dor e tombamos.
Morremos, diante do riso de Alonso, o mexicano.
Nós, o pistoleiro, não devíamos ter piedade.
Pois bem. Minha primeira reação ao terminar o conto foi respirar fundo e dizer, “puta que pariu!”. Talvez não seja muito erudito nem nada, mas foi bem isso mesmo. Tudo nesse conto contribui para o final, que é arrebatador, e passa muito bem certa ideia e certo sentimento.
O título já é bastante elucidativo. “Nós, o pistoleiro, não devemos ter piedade”. Logo de início, você é apresentado ao típico pistoleiro americano, invencível e inalcançável, que carrega nas costas várias mortes. O uso do plural majestático é significativo. “Nós, o pistoleiro”, porque ele nunca está sozinho, depois de tantas mortes e tanto sangue. Seu olhar é soturno, e seu uísque, bebido por remorso. Reparem que o título indica uma necessidade de sobrevivência. Por estigma do seu modo de ser, o pistoleiro não pode ter piedade. E isso é muito importante para o desenrolar do conto. Poe apregoava que a primeira frase do conto deveria dar-lhe o tom e já dizer, de antemão, como ele seria. Scliar fez isso no título.
Alonso mostra por que o pistoleiro não pode ter piedade. O mexicano o esbofeteia duas vezes, caçando confusão. O pistoleiro não busca problemas, mas eles vêm de qualquer jeito. Ele não queria matar mais ninguém. Só que, para o cão mexicano, terá que abrir uma exceção.
Em seguida, vemos como o pistoleiro não liga para as bofetadas, e apenas marca o duelo. Sabe de si, de sua capacidade. Não se questiona, em nenhum momento, se vai ou não vencer. Ele vai vencer. Paga o uísque e vai embora. No dia seguinte, encontra Alonso, e pensa, com desgosto, na morte do mexicano. Ainda assim, não abandona sua linguagem seca e autossuficiente. “Vê um pistoleiro de olhar soturno, o mexicano. Seu riso se apaga. Vê muitas mortes em nossos olhos. É o que ele vê.”. “Pobre diabo”. Um modo de ver o outro como coitado, por se meter com alguém tão bom, poderoso, e invencível quanto o terrível pistoleiro.
Tudo se encaminha para a morte do mexicano, pois o pistoleiro tem um destino, já marcado em seu estereótipo, que é não deixar barato afrontas, estar sempre envolvido nesse tipo de problema e, acima de tudo, permanecer invencível. E tudo indica que, apesar de não querer, ele matará o mexicano, porque é assim que tem que ser.
Mas, então, algo acontece. Ao pensar no destino da família de Alonso, o pistoleiro chora. E não saca sua arma. Alonso saca, feliz por ver no pistoleiro uma falha. E o mata. Alonso ri, vendo-se vitorioso. E o terrível protagonista pensa: “Nós, o pistoleiro, não devíamos ter piedade”.
A mudança na conjugação é, mais uma vez, significativa. De fato, ela é essencial para a unidade do conto, pois liga o final ao título, que é, no fim das contas, o início do conto (neste caso). Se, no começo, o pistoleiro não deve ter piedade, pelo motivo já exposto, no final, ao morrer, ele pensa que não devia ter. Ele não devia. Mas teve. E, por isso, morreu.
A carga emocional desse conto é imensa. Por um motivo, principalmente: o conto humaniza o que é, tipicamente, sobre-humano. O terrível pistoleiro, tão utilizado numa série de filmes. Um tipo que atrai, realmente. E, ao vermos esse tipo novamente, dessa vez num conto, esperamos algo à altura. Mas ele sucumbe à sua humanidade, ao seu remorso e compaixão. É isso que torna esse conto tão grande e tão impactante. O modo como, através da ação, Scliar mexe com um estereótipo de modo tão profundo.
Espero que tenham gostado desse meu primeiro Canto do Conto. Os leitores do meu antecessor (haha) perceberam que mudei um pouco a estrutura da coluna. Isso porque quero dar mais ênfase à análise e comentário do texto. Claro que aceito críticas e sugestões de melhora. Não deixem de curtir e compartilhar o texto, além de, é claro, deixar a opinião de vocês sobre o conto e a minha análise. Obrigado!
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