Mania das tulipas, tulipomania, tulipamania, febre
da tulipa ou crise das tulipas são expressões
referentes a um episódio da História dos Países Baixos que deu
origem à primeira bolha
especulativa conhecida. Hoje, tais termos são
aplicados metaforicamente a qualquer bolha especulativa em grande escala.
As tulipas foram
introduzidas nos Países Baixos no século XVI. Suas
flores, muito apreciadas por sua beleza, passaram a ser muito procuradas,
favorecendo o aumento dos preços. Com o passar dos anos, os preços aumentavam
cada vez mais rápido, tornando o comércio de bulbos de tulipas bastante
lucrativo. Pessoas de todas as classes vendiam propriedades para investir em
tulipas, e em meados da década de 1630 surgiram contratos de futuros para negociar os bulbos antes mesmo da
colheita. Em 1637, devido a
diversos fatores, houve uma perda de confiança em tais títulos, levando muitos
a uma corrida para o resgate de seus investimentos. Consequentemente, os preços
caíram subitamente, e inúmeros negociantes foram à falência.
História
Charles de
l'Écluse.
Aquarela de um
pintor holandês anônimo do século XVII mostra a Semper Augustus, o
bulbo mais famoso de tulipa, que foi vendido por preço recorde.
A tulipa foi
introduzida na Europa durante
a metade do século XVI à
época do Império Otomano. Imagina-se que seu cultivo nas Sete Províncias
tenha começado em 1593,
quando Charles de l'Écluse criou mudas de tulipa capazes de tolerar as
ásperas condições climáticas nos Países Baixos , a partir de bulbos que lhe haviam
sido enviados da Turquia por
Ogier de Busbecq. No começo do século XVII, a flor já
era muito usada na decoração de jardins e também na medicina.
Apesar de não terem
perfume e florescerem apenas por uma ou duas semanas ao ano, os jardineiros
holandeses apreciavam as tulipas por sua beleza. Muitos mercadores, artesãos e
colecionadores preferiam colecionar e pintar tulipas a quadros.
Rapidamente a
popularidade das flores aumentou. Mudas especiais recebiam denominações
exóticas ou nomes de almirantes da marinha holandesa. As mais espetaculares e
altamente desejadas tinham cores vívidas, linhas e pétalas flamejantes. A
tulipa se tornara um cobiçado artigo de luxo e
símbolo de status social e estabelece-se a competição entre membros
das altas classes pela posse das variedades mais raras. Os preços disparam.
Em 1623, um
simples bulbo de uma variedade famosa de tulipa poderia custar muitos milhares
de florins neerlandeses. Tulipas foram trocadas por terras, animais valiosos.
Algumas variedades podiam custar mais que uma casa em Amsterdã. Dizia-se
que um bom negociador de tulipas conseguia ganhar seis mil florins por mês,
quando a renda média anual, à época, era de 150 florins. Um bulbo de tulipa passou
a ser vendido pelo preço equivalente a 24 toneladas de trigo. Por
volta de 1635, a venda
de 40 bulbos por 100.000 florins foi um recorde. Para efeito de comparação, uma
tonelada de manteiga custava algo em torno de 100 florins e oito porcos graúdos
custavam 240 florins. O recorde foi a venda de um dos mais famosos bulbos,
o Semper Augustus, por 6.000 florins, em Haarlem.
Em 1636, tulipas
eram vendidas nas bolsas de valores de
numerosas cidades holandesas. O comércio das flores era encorajado por todos os
membros da sociedade; muitas pessoas vendiam ou negociavam suas posses no
intuito de especular no mercado de tulipas. Alguns especuladores tiveram
muito lucro, enquanto outros perderam tudo ou quase tudo o que tinham.
Negociantes
passaram a vender bulbos das tulipas que tinham acabado de plantar ou ainda que
intencionavam plantar (os chamados contratos futuros de
tulipa) - apesar de um édito de 1610 ter
proibido esse tipo de negócio. O fenômeno foi chamado windhandel ("negócio
de vento") e ganhou espaço sobretudo em tavernas de cidades pequenas, onde
se usava uma espécie de lousa para indicar as ofertas de preço.
Em fevereiro de
1637, os comerciantes de tulipas não conseguiam mais inflacionar os preços de
seus bulbos e então começaram a vendê-los. A bolsa de valores estourou.
Começou-se a suspeitar que a demanda por tulipas não duraria e isso propagou o
pânico no mercado. Alguns deixaram de segurar contratos para compra de tulipas,
estabelecidos a preços que agora eram dez vezes maiores que os preços de
mercado; outros acharam-se na posse de bulbos cujo preço era muito inferior ao
que haviam pago. Consequentemente, milhares de holandeses, incluindo executivos
e membros da alta sociedade, ruíram financeiramente.
Aquarela de
uma tulipa, publicada na revista Harper's New Monthly Magazine, em1876. Pintura de Pierre-Joseph Redouté.
Tentativas de
resolver a situação fracassaram. Os juízes consideraram os débitos como
contratados através de especulação e portanto, sem corroboração legal. Assim,
as pessoas permaneceram abarrotadas de bulbos comprados antes da quebra, já que
nenhuma Corte determinaria a execução do pagamento desses contratos.
Versões menores da
tulipamania também ocorreram em outras partes da Europa, entretanto nunca
chegaram ao nível da que ocorreu nos Países Baixos. Na Inglaterra de 1800, era comum
pagar cinquenta guinéus por um único bulbo de tulipa. Esta soma poderia manter
um trabalhador e sua família com comida, roupa e aluguel por seis meses.
Os fatos foram
relembrados, mais de dois séculos depois, no livro Memorando de extraordinários
engodos populares e a loucura das multidões, escrito
pelo jornalista inglês Charles Mackay, em 1843. Mackay,
no entanto, omitiu-se de mencionar que no mesmo período, os Países Baixos foram
também atingidos por uma epidemia de peste bubônica, entre
outros contratempos, durante a Guerra dos Trinta Anos. Possuir tulipas
no lar era um meio de impressionar e quando a riqueza rolava escada-social
abaixo então, todos clamavam por tulipas. Charles Mackay conta uma história da
época:
Um rico mercador havia pago 3.000 florins (280 libras esterlinas) por
uma rara tulipa Semper Augustus que desaparece de seu
depósito. Depois de vasculhar todo o depósito, viu um
marinheiro, que havia confundido o bulbo da tulipa por uma cebola, comendo a
tulipa. O marinheiro foi prontamente preso e passou seis meses na prisão.
No século XX descobriu-se que as pétalas repletas de babados e cores
vicejantes, que davam a essa flor um ar apoteótico, eram, de fato, resultado de
uma infecção causada por um vírus que
só atingia tulipas, conhecido como vírus do mosaico da tulipa. A flor saudável era considerada sólida, macia e
monótona.
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