Série: pintores brasileiros
Grande herdeiro da escola pictórica paulista
Arcangelo
Ianelli – Foto artista
Filho de imigrantes
italianos, Arcangelo Ianelli nasceu na cidade de São Paulo em 1922. Iniciou-se
no
desenho na adolescência e, a partir de 1940, dedicou-se à pintura, gravura,
serigrafia, esculturas e relevos pintados.
No princípio da
década de 1940, tem aulas de arte na Associação Paulista de Belas Artes e
inicia curso de pintura com Colette Pujol. Nesse período, faz pinturas e
desenhos realistas, estruturados de acordo com as características percebidas na
pintura paulistana.
Dois anos depois,
frequenta o ateliê de Waldemar da Costa com Lothar Charoux, Hermelindo
Fiaminghi e Maria Leontina. Durante a década de 1950 integra o Grupo Guanabara
juntamente com Manabu Mabe, Yoshiya Takaoka, Jorge Mori, Tomoo Handa, Tikashi
Fukushima e Wega Nery, entre outros.
A partir da década
de 1940, produz cenas cotidianas, paisagens urbanas e marinhas, que revelam
grande síntese formal e uma gama cromática em tons rebaixados.
Entre o fim da
década de 1940 e início da década de 1950, passa a demonstrar interesse por
outras propostas estilísticas, aproximando-se progressivamente de soluções
alinhadas ao debate sobre a arte construtiva, muito embora se mantenha ligado à
figuração.
Arcangelo
Ianelli – Foto artista
Nas marinhas,
realizadas em 1957, a tendência à simplificação formal se aprofunda. O artista
reduz sua paleta de cores e se concentra em formas lineares e bem contornadas.
Nesse trabalho, as formas são planas, sem o sombreado tradicional. Os primeiros
quadros da década de 1960 são feitos com formas geométricas simples e fechadas.
Ianelli usa esse vocabulário para criar paisagens e retratos. Em 1961, a
pintura torna-se francamente abstrata. No entanto, as cores ralas e a pincelada
suave são trocadas por manchas espessas de tinta e cores escuras. Três anos
mais tarde, ganha o prêmio de viagem ao exterior do Salão Nacional de Arte
Moderna – SNAM. Passa de 1965 a 1967 na Europa. Nesse período, o artista insere
linhas e outros grafismos em sua pintura, as formas vão se tornando mais
regulares e contornadas, as manchas são suavizadas.
Já a partir de
1970, volta-se à abstração geométrica, e emprega principalmente retângulos e
quadrados, que se apresentam como planos superpostos e interpenetrados. No
mesmo ano, inicia séries de pintura, como Transparências e Superposições, em
que trabalha com retângulos sobrepostos, com colorido discreto e
vibrante. Em 1974,
começa a realizar obra tridimensional. Como em suas pinturas, sobrepõe
retângulos em planos diferentes de uma superfície contínua.
Atua ainda como escultor, desde a metade da década de 1970, quando realiza obras em mármore e em madeira, nas quais retoma questões constantes na obra pictórica.
Atua ainda como escultor, desde a metade da década de 1970, quando realiza obras em mármore e em madeira, nas quais retoma questões constantes na obra pictórica.
A partir de 1983, o
artista relaciona essas formas geométricas com zonas de cor menos lineares. As
manchas passam a escapar do contorno. Em alguns trabalhos, somem as linhas que
separam uma cor da outra e as manchas regulares de tinta são sobrepostas às
formas retangulares, as passagens de cor se tornam mais tonais. Durante a
década de 1980, alterna essas pinturas mais informais a outras em que relaciona
as manchas com retângulos.
Em 1995, Ianelli
volta à escultura. Realiza volumes brancos enxutos e bem definidos de mármore.
Ao mesmo tempo, sua pintura caminha para a simplificação. Em trabalhos feitos
entre 1999 e 2000, chamados Vibrações, reduz o número de cores e de manchas na
pintura. A aplicação da tinta é suave, como se fosse borrifada na tela. As
obras têm semelhanças com o trabalho de artistas norte-americanos, como Mark
Rothko e Jules Olitski.
Em 2002, comemora
os seus 80 anos com retrospectiva montada pela Pinacoteca do Estado de São
Paulo – Pesp. Em mais de 60 anos de carreira, seu trabalho ocorria basicamente
no ateliê, ao contrário dos procedimentos contemporâneos, mas numa lógica que
tem muito a ver com a produção atual. “O que move o artista é a insatisfação, o
dia em que eu ficar plenamente satisfeito com minha obra, não tenho mais razão
para pintar”, disse Ianelli em 2002, dias antes de inaugurar sua retrospectiva
na Pinacoteca do Estado.
Na época, aliás,
ele não pôde comparecer à abertura da mostra por ter sofrido um derrame
cerebral, na antevéspera do evento.
Um dos críticos que
mais valorizou seu trabalho foi Mário Pedrosa considerado seu padrinho pelo
artista e que via sua obra como um “estado contemplativo à beira de
perturbar-se, em face das contradições da vida”, como escreveu no catálogo de
uma exposição no Museu de Arte Moderna do Rio, em 1961.
A questão da
dimensão hiperbólica também era importante nas pinturas de Ianelli,
especialmente a partir dos anos 60. “Eu não persigo a beleza; se ela ocorre, é
involuntária. Busco
fazer um trabalho profundo ao depurar a cor”, disse Ianelli à Folha em
entrevista em 2002.
Durante toda sua
vida, a expressão cromática representou o âmago de sua poética. A cor/luz
exerceu sempre extraordinário fascínio e foi também o desafio de uma vida
inteira. Na fase final, a cor adquiriu total protagonismo para pulsar como
fonte de energia e de beleza! Arcângelo Ianelli deixou-nos uma obra radiante,
plena de energia, vibrante como a luz que dá vida ao universo. Ianelli faleceu
no dia 26 de maio de 2009 em São Paulo.
Arcangelo
Ianelli – Foto artista
Para Tadeu
Chiarelli, crítico e professor da USP, Ianelli foi o “grande herdeiro da
pintura paulista”, que seguiu a tradição ao mesmo tempo em que dialogava com
novos experimentos. “Ele superou os limites do ambiente paulistano”, resume
Chiarelli, 52. “Sua obra transcendeu essas circunstâncias.”
Fonte: Mercado Arte
Ianelli suscitou,
aliás, reações favoráveis quase unânimes da crítica. Não que sua obra fosse
irretocável, mas muitos julgam que ressalvas foram silenciadas ao longo do
tempo pela consagração dele como um mestre do abstrato.
“Ele foi um grande
colorista, um mestre da pintura e uma figura muito especial”, lembra Marcelo
Araujo, 52, diretor da Pinacoteca, que fez em 2002 uma das últimas
retrospectivas do artista. “É uma perda duplamente sentida, pela obra dele e
pela pessoa que ele foi.”
Autorretrato
“É a perda de um
artista que já vinha sofrendo, de um grande companheiro”, diz Emanoel Araújo.
“Teve uma trajetória absolutamente coerente. É uma pena que Ianelli se vá.”


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