(Parte 1)
Eu vi o golpe
Às 21 horas,
saí do Hotel Serrador, na Cinelândia, e fui para o Automóvel Clube do Rio, ali
ao lado da Mesbla, na Rua do Passeio, na noite de 30 de março de 64. Havia mais
farda do que roupa. Quase impossível entrar. Mais de mil pessoas ansiosas,
agitadas, aos gritos, em um auditório pequeno.
Todo mundo esperando
o presidente João Goulart, Dai a pouco, ele chegou com os ministros militares e
outros, freneticamente saudado. Pálido, perplexos olhos de espanto, cercado
pela segurança, avançou entre a multidão. Tive a exata impressão de que estava
sendo empurrado para o matadouro.
Lá de cima,
olhou aquele mundo de fardas e deu seu raro sorriso tímido, mas largo, quase
vitorioso. E se reanimou. Na mesa, com ele, o ministro da Justiça Abelardo
Jurema, o sargento-deputado Garcia, o sargento Antonio Prestes, o cabo Anselmo
dos Santos. Era um ato flagrantemente militar.
Cada
discurso mais inflamado. Ele os ouvia impávido. Mas ninguém falou em golpe, em
rasgar a Constituição. A palavra de ordem era forçar o Congresso a aprovar as
reformas de base. Jurema, com seu poderoso vozeirão, insistiu em que a história
sempre foi o povo a esperança virar a lei.
Jango
Quando Jango
se levantou, a meu lado, espremido como eu contra a parede, o sereno mineiro
Oswaldo Gusmão, assessor do chefe da Casa Civil, Darcy Ribeiro, que escrevia os
discursos e mensagens do Presidente, suava de ansiedade. Tinha feito também
aquele discurso que Jango tirava do bolso.
Começou a
ler pausadamente. Dai a pouco, à medida em que o salão sacudia de aplausos,
Jango ia levantado a voz e a alma, falando cada vez com mais vigor, mais já não
era o mesmo homem inseguro que eu vira entrar.
De repente,
num gesto brusco, Jango jogou sobre a mesa as laudas que faltava ler e começou
a falar de improviso, cada vez mais forte, jurando, emocionado, que a politica de
conciliação chegara ao fim e que as reformas iriam ser conquistadas nas ruas.
Gusmão gemeu, tenso:
- Ai, meu
Deus! Puta que o pariu!
- Por que,
Gusmão?
Ele não pode
fazer isso. Não pode errar. Os golpistas estão esperando um pretexto, uma
palavra em falso e tudo estará perdido. Àquela hora, já madrugada de 31 de
março, tudo já estava perdido. O golpe saía de Minas Gerais. Gusmão contou que,
Jango ainda no Laranjeiras, Tancredo Neves lhe pediu:
-
Presidente, não vá. Se o senhor for, o senhor cai.
Mourão e Brizola
Jango saiu,
a Cinelândia continuou incendiada. O Clube Militar, na Praça, de luzes acesas,
oficiais entrando e saindo. No Clube Naval, esquina de Almirante Barroso com
Rio Branco, os discursos gritavam pelas janelas.
O dia
amanhecendo. Entro no Hotel Serrador, carregado de jornais ainda quentes. A
conspiração virava golpe em todas as manchetes, com exceção única da “Última
Hora”. O “Correio da Manhã” urrava: “Fora”.
Acordei meio
dia com um telefonema de Minas. Apoiado pelo Governador Magalhães Pinto, o
general Mourão Filho, que a UDN achava um paspalhão, marchava de Juiz de Fora
para o Rio à frente de suas tropas.
Corri parra
a casa de Max da Costa Santos, baiano, deputado do PSB da Guanabara, no
Flamengo. Ligamos para Brizola em Porto Alegre, que regia:
- Vamos
resistir. Como em 61, vamos resistir de qualquer maneira! Isso é um golpe dos
interesses norte-americanos com tropas brasileiras. O Jango está hesitando, mas
a UDN vai querer fazer agora o que Vargas impediu em 54 com o suicídio. Temos
que jogar tudo. Aqui no Rio Grande, vou marchar com o povo e ocupar o governo.
É preciso segurar o Lacerda aí. Vão para a Rádio Mayrink Veiga. O Miguel Leuzi
esta sem querer fazer de novo a Cadeia da Legalidade, mas temos que por no ar,
imediatamente, pela nossa Mayrink.
Fomos. Max
assumiu a rádio e os oradores desfilavam no microfone. Denunciei o caráter
norte-americano do golpe (como ficou provado em 1977, nos documentos secretos
dos Estados Unidos revelados por Marcos de Sá Correa).
Anoiteceu e
de repente o corre-corre. Caminhões da Polícia Militar do governador Lacerda
cercavam a rádio.
Telefonamos
desesperados para os Fuzileiros Navais do almirante Aragão, que prometeram ir e
não chegavam.
Enfiamos os
bicos de meia dúzia de enferrujados fuzis e metralhadoras nas janelas do
segundo e terceiro andar, para dar a impressão que estávamos fortemente
armados. A PM não entrou, não subiu, e lembro bem o ridículo de me ver atrás de
um cabo de metralhadora que mal sabia manejar, apontada para o botequim bem em
frente, na ruazinha apertada, e o velho português, da porta, gritando
apavorado, com os braços abertos:
- Aponta pra
lá “doutoire”! Aponta para o outro lado, por “favoire”!
Os
fuzileiros chegaram, a PM saiu, fomos para a Rádio Nacional.
Amanhã,
sigam a continuação deste texto: Eu vi o
golpe (2).

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