segunda-feira, 19 de maio de 2014

HISTÓRIAS DE SEBASTIÃO NERY

(Parte 1)

Eu vi o golpe
Às 21 horas, saí do Hotel Serrador, na Cinelândia, e fui para o Automóvel Clube do Rio, ali ao lado da Mesbla, na Rua do Passeio, na noite de 30 de março de 64. Havia mais farda do que roupa. Quase impossível entrar. Mais de mil pessoas ansiosas, agitadas, aos gritos, em um auditório pequeno.

Todo mundo esperando o presidente João Goulart, Dai a pouco, ele chegou com os ministros militares e outros, freneticamente saudado. Pálido, perplexos olhos de espanto, cercado pela segurança, avançou entre a multidão. Tive a exata impressão de que estava sendo empurrado para o matadouro.
Lá de cima, olhou aquele mundo de fardas e deu seu raro sorriso tímido, mas largo, quase vitorioso. E se reanimou. Na mesa, com ele, o ministro da Justiça Abelardo Jurema, o sargento-deputado Garcia, o sargento Antonio Prestes, o cabo Anselmo dos Santos. Era um ato flagrantemente militar.
Cada discurso mais inflamado. Ele os ouvia impávido. Mas ninguém falou em golpe, em rasgar a Constituição. A palavra de ordem era forçar o Congresso a aprovar as reformas de base. Jurema, com seu poderoso vozeirão, insistiu em que a história sempre foi o povo a esperança virar a lei.
Jango
Quando Jango se levantou, a meu lado, espremido como eu contra a parede, o sereno mineiro Oswaldo Gusmão, assessor do chefe da Casa Civil, Darcy Ribeiro, que escrevia os discursos e mensagens do Presidente, suava de ansiedade. Tinha feito também aquele discurso que Jango tirava do bolso.
Começou a ler pausadamente. Dai a pouco, à medida em que o salão sacudia de aplausos, Jango ia levantado a voz e a alma, falando cada vez com mais vigor, mais já não era o mesmo homem inseguro que eu vira entrar.
De repente, num gesto brusco, Jango jogou sobre a mesa as laudas que faltava ler e começou a falar de improviso, cada vez mais forte, jurando, emocionado, que a politica de conciliação chegara ao fim e que as reformas iriam ser conquistadas nas ruas. Gusmão gemeu, tenso:
- Ai, meu Deus! Puta que o pariu!
- Por que, Gusmão?
Ele não pode fazer isso. Não pode errar. Os golpistas estão esperando um pretexto, uma palavra em falso e tudo estará perdido. Àquela hora, já madrugada de 31 de março, tudo já estava perdido. O golpe saía de Minas Gerais. Gusmão contou que, Jango ainda no Laranjeiras, Tancredo Neves lhe pediu:
- Presidente, não vá. Se o senhor for, o senhor cai.
Mourão e Brizola
Jango saiu, a Cinelândia continuou incendiada. O Clube Militar, na Praça, de luzes acesas, oficiais entrando e saindo. No Clube Naval, esquina de Almirante Barroso com Rio Branco, os discursos gritavam pelas janelas.
O dia amanhecendo. Entro no Hotel Serrador, carregado de jornais ainda quentes. A conspiração virava golpe em todas as manchetes, com exceção única da “Última Hora”. O “Correio da Manhã” urrava: “Fora”.
Acordei meio dia com um telefonema de Minas. Apoiado pelo Governador Magalhães Pinto, o general Mourão Filho, que a UDN achava um paspalhão, marchava de Juiz de Fora para o Rio à frente de suas tropas.
Corri parra a casa de Max da Costa Santos, baiano, deputado do PSB da Guanabara, no Flamengo. Ligamos para Brizola em Porto Alegre, que regia:
- Vamos resistir. Como em 61, vamos resistir de qualquer maneira! Isso é um golpe dos interesses norte-americanos com tropas brasileiras. O Jango está hesitando, mas a UDN vai querer fazer agora o que Vargas impediu em 54 com o suicídio. Temos que jogar tudo. Aqui no Rio Grande, vou marchar com o povo e ocupar o governo. É preciso segurar o Lacerda aí. Vão para a Rádio Mayrink Veiga. O Miguel Leuzi esta sem querer fazer de novo a Cadeia da Legalidade, mas temos que por no ar, imediatamente, pela nossa Mayrink.
Rádio Mayrink Veiga
Fomos. Max assumiu a rádio e os oradores desfilavam no microfone. Denunciei o caráter norte-americano do golpe (como ficou provado em 1977, nos documentos secretos dos Estados Unidos revelados por Marcos de Sá Correa).
Anoiteceu e de repente o corre-corre. Caminhões da Polícia Militar do governador Lacerda cercavam a rádio.
Telefonamos desesperados para os Fuzileiros Navais do almirante Aragão, que prometeram ir e não chegavam.
Enfiamos os bicos de meia dúzia de enferrujados fuzis e metralhadoras nas janelas do segundo e terceiro andar, para dar a impressão que estávamos fortemente armados. A PM não entrou, não subiu, e lembro bem o ridículo de me ver atrás de um cabo de metralhadora que mal sabia manejar, apontada para o botequim bem em frente, na ruazinha apertada, e o velho português, da porta, gritando apavorado, com os braços abertos:
- Aponta pra lá “doutoire”!   Aponta para o outro lado, por “favoire”!
Os fuzileiros chegaram, a PM saiu, fomos para a Rádio Nacional.

Amanhã, sigam a continuação deste texto: Eu vi o golpe (2). 


Nenhum comentário:

Postar um comentário