Crônica de Jayme Barbosa
Extraída do livro Crônicas Recolhidas
POSH
é gíria da língua inglesa, traduzida do dicionário Inglês-Português da Record
como elegante, fino. No English Dictionnary da COBUILD, aparece também nas
formas comparativa e superlativa: posher e poshest, e é ali conceituado como
algo avançado e caro, para coisa, e de alta classe, para gente. Estranhamente,
não consta no Webster’s Collegiate, onde depois de poser vem posit; nem na
Britannica, que faz referência apenas a posh-té, anonácea do grupo das
dicotiledôneas, sem nenhuma ligação com classes privilegiadas, portanto.
Mas
a origem do adjetivo, não registrada nos dicionários, foi-me revelada há anos
por um velho amigo: cônsul, linguista e navegador.
O
termo posh surgiu no tempo da dominação inglesa na Índia. As incontáveis
viagens de navio entre os dois países, no curso daqueles dois séculos, eram
penosamente demoradas. Além da distância, a propulsão a vapor, que não
imprimira ainda velocidade razoável aos transatlânticos, só aconteceu no início
do século XIX, já com três quartos de século de ocupação e de sofridas viagens
a vela.
Porém
o que mais acrescentava sofrimento ao viajante era a posição do camarote.
Estava literalmente frito o infeliz a quem coubesse acomodação voltada para o
poente, já que não existia ar condicionado naquela época.
Foi
então que um padecente comerciante, sujeito a vários percursos daqueles, viu
que na viagem da Inglaterra para a Índia o sol nascente – que, como todos os
astros, nasce no Oriente – iluminava quase sempre o bordo esquerdo da nave,
chamado de bombordo pelos navegantes. Na volta para casa dava-se, é lógico, o
reverso: os camarotes suportáveis, por não pegarem o sol poente, ficavam a
boreste.
Ora,
com em inglês chamava-se bombordo de port e boreste ou estibordo de starboard,
o nosso viajante ajudado pela concisão da língua, montou mnemônico lema: port
out, starboard home, resumido na sigla posh, que hoje significa coisa fina, sofisticada.
Até
aqui, tudo bem. Todavia, para nós, baianos, nesta tropical latitude, onde até
no universo o Sol já nasce fervendo, e sujeitos, como agora, a controles
impostos pela crise energética, neste ano de virada de século, que nos suprime
nas imagináveis caravelas de trabalho o ar condicionado no início das manhãs e
no fim das tardes, o posh é inaplicável. Aqui, o nascente incomoda quase tanto
quanto o poente.
Na
minha sala, a bombordo, sou “maçaricado”
parte da manhã pelo sol matinal, imaginem os infelizes de boreste, à tarde.
Assim,
no curso da crise, é melhor navegarmos à noite, em barcos sem bordo, tocados a
vela sob a “obsclara” cor da noite, a
sonhar sonhos que mortal algum ousou sonhar ainda e a cantar versos que Homero
gemeu.
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