terça-feira, 14 de outubro de 2014

O POSH DE LÁ E O DE CÁ

 Crônica de Jayme Barbosa
Extraída do livro Crônicas Recolhidas

 POSH é gíria da língua inglesa, traduzida do dicionário Inglês-Português da Record como elegante, fino. No English Dictionnary da COBUILD, aparece também nas formas comparativa e superlativa: posher e poshest, e é ali conceituado como algo avançado e caro, para coisa, e de alta classe, para gente. Estranhamente, não consta no Webster’s Collegiate, onde depois de poser vem posit; nem na Britannica, que faz referência apenas a posh-té, anonácea do grupo das dicotiledôneas, sem nenhuma ligação com classes privilegiadas, portanto.
Mas a origem do adjetivo, não registrada nos dicionários, foi-me revelada há anos por um velho amigo: cônsul, linguista e navegador.
O termo posh surgiu no tempo da dominação inglesa na Índia. As incontáveis viagens de navio entre os dois países, no curso daqueles dois séculos, eram penosamente demoradas. Além da distância, a propulsão a vapor, que não imprimira ainda velocidade razoável aos transatlânticos, só aconteceu no início do século XIX, já com três quartos de século de ocupação e de sofridas viagens a vela.
Porém o que mais acrescentava sofrimento ao viajante era a posição do camarote. Estava literalmente frito o infeliz a quem coubesse acomodação voltada para o poente, já que não existia ar condicionado naquela época.

Foi então que um padecente comerciante, sujeito a vários percursos daqueles, viu que na viagem da Inglaterra para a Índia o sol nascente – que, como todos os astros, nasce no Oriente – iluminava quase sempre o bordo esquerdo da nave, chamado de bombordo pelos navegantes. Na volta para casa dava-se, é lógico, o reverso: os camarotes suportáveis, por não pegarem o sol poente, ficavam a boreste.
Ora, com em inglês chamava-se bombordo de port e boreste ou estibordo de starboard, o nosso viajante ajudado pela concisão da língua, montou mnemônico lema: port out, starboard home, resumido na sigla posh, que hoje significa coisa fina, sofisticada.
Até aqui, tudo bem. Todavia, para nós, baianos, nesta tropical latitude, onde até no universo o Sol já nasce fervendo, e sujeitos, como agora, a controles impostos pela crise energética, neste ano de virada de século, que nos suprime nas imagináveis caravelas de trabalho o ar condicionado no início das manhãs e no fim das tardes, o posh é inaplicável. Aqui, o nascente incomoda quase tanto quanto o poente.
Na minha sala, a bombordo, sou “maçaricado” parte da manhã pelo sol matinal, imaginem os infelizes de boreste, à tarde.
Assim, no curso da crise, é melhor navegarmos à noite, em barcos sem bordo, tocados a vela sob a “obsclara” cor da noite, a sonhar sonhos que mortal algum ousou sonhar ainda e a cantar versos que Homero gemeu.

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