Inquisição: caça as bruxas
Johannes Junius (Niederwehbach, 1573—Bamberg,
agosto de 1628) foi um burgomestre e
suposto bruxo alemão que foi burgomestre de Bamberg em 1614,
1617, 1621 e entre 1624 e 1628, além de
presidente do conselho entre 1608 e 1613, em 1615, 1616, 1618, 1619, 1620,
1622 e 1623.
Junius foi levado a mártir após sua execução
por bruxaria através de falsos testemunhos obtidos sob tortura. Sua fama
póstuma como mártir deve-se principalmente à tocante carta que escreveu da
prisão para sua filha Veronika, transcrita abaixo.
O bispado de Bamberg experimentou o auge da caça
às bruxas sob a égide do príncipe-bispo Johann Georg II Fuchs de
Dornheim: entre 1626 e 1631 centenas de homens e mulheres
foram queimados na fogueira. A caçada
implacável desses anos caracterizou-se por procedimentos de inquisição
meticulosos. Johann Georg "der Hexenbrenner" (literalmente o
queima-bruxas) mandou erigir em Bamberg em 1627 a prisão para bruxas
"Drudenhaus" (literalmente, casa das bruxas) e no ano seguinte
contratou o comissário de Eichstätt Dr. Johann Schwarzkronz. Os nomes
de outros bruxos eram assim arrancados através de torturas refinadas além das
habituais denúncias. Nesse período de caça as bruxas, personalidades da vida
pública como Johannes Junius, vítimas de intrigas e que criticaram os processos
de bruxaria, também começaram a ser acusadas, presas e torturadas. Além de
Junius o chanceler Georg Haan também foi vitimado pela caça as bruxas - que só
viriam a ter um fim em 1683 com a aproximação das tropas suecas.
Em 1608 Johannes Junius assumiu pela primeira vez
sua função pública e até 1628 sua imagem parecia não há registros que
comprometam sua imagem. Mas para sua
desgraça seu colega Georg Haan, preso e torturado por bruxaria, foi
coagido a citar seu nome como "bruxo chefe" e Junius foi levado à
"justiça".
Junius foi
acusado das práticas clássicas e habituais de bruxaria, como renegar o nome de
Deus e participar e presidir Sabás (reuniões de bruxas). Como
Johannes Junius negou veementemente todas as acusações foi entregue ao carrasco torturador.
De acordo com as transcrições do processo a aplicação do "esmagador de
polegares" e da "bota espanhola" não se mostraram suficiente
para arrancar confissões de Junius - o que só aconteceu após a aplicação da
"Estrapada" (ou Polé) (Uma tortura fundamental, que consistia na
deslocação dos ombros, pelo movimento de içar violentamente a vítima, com os
braços atados às costas, com o corpo suspenso) - como ele viria a descrever à
sua filha na carta transcrita abaixo.
Com a
eficácia da tortura, Junius veio a confessar que negara a Deus depois de ter
sido seduzido pelo diabo na forma de uma sedutora mulher, ter tido uma súcubo chamada
Raposa, profanado a hóstia e ter voado num cão negro para um sabá
(reunião de bruxas). Raposa o teria ordenado a matar seus filhos com um pó
negro, mas ele, tendo se negado a fazê-lo, teve de sacrificar um cavalo no
lugar das crianças. Além disso acabou por citar vários outros nomes de supostos
cúmplices, que também viriam a ser torturados.
O tribunal aceitou a confissão e Johannes Junius
foi por fim executado na fogueira em 1628. De acordo com outras fontes ele
teria sido decapitado com a espada antes de seu corpo ser queimado.
Eis a carta:
„Inocente vim
para a prisão, inocente fui martirizado, inocente devo morrer. Pois quem vem a
esta casa tem de ser um bruxo ou então é por tão longo martirizado até que
invente alguma coisa de sua cabeça... Eu pedi aos senhores (à comissão de
exame) que pelo amor de Deus, eles ouviram, se tratavam de testemunhos
totalmente falsos e que deveriam ser examinados mais cautelosamente e sob
juramento; isto, porém não foi concedido e eles disseram que eu deveria
confessar de bom grado ou o carrasco me coagiria. Eu respondi: Eu jamais
reneguei a Deus e jamais virei a fazê-lo, que Deus me livre disso. Eu
preferiria aguentar o que fosse.
„Então para o
meu pesar veio o carrasco, que Deus do Céu tenha piedade, e me pôs o esmagador
de polegares, com ambas as mãos amarradas fazendo sair o sangue pelas minhas
unhas de modo que eu não pude utilizar as mãos por quatro semanas, como podes
ver pela minha escrita. Eu então me entreguei a Deus em suas cinco santas
feridas e disse: "Já que isto diz respeito à honra e ao nome de Deus, que
eu não reneguei, eu quero então depositar todo este meu martírio e dor em suas
cinco feridas; ele aliviará minhas dores de modo que possa superá-las."
Depois disso me despiram, amarraram-me as mãos nas costas e assim me
suspenderam com torturas. Nisto pensei que o Céu e a Terra se acabavam; eles me
suspenderam e me deixaram cair oito vezes, me fazendo sentir dores desgraçadas.
E tudo isso deu-se comigo nu, pois eles me despiram por completo. Quando então
Deus nosso Senhor me ajudou eu pude dizê-los: "Que Deus os perdoe por
atacar um homem honesto e inocente; vocês não só o querem privar de seu corpo e
alma como também de suas posses." Então o Doutor Braun disse: "Tu és
um malandro. " Eu disse: "Eu não sou malandro nem nada do tipo e sou
tão honesto quanto vós sois. Apenas se isto continuar assim nenhum homem
honesto de Bamberg estará a salvo. Nem eu, nem vós, nem qualquer outro."
Então o Doutor disse que não seria atacado pelo Diabo, eu disse: "Eu
também não, mas vossas falsas testemunhas e vosso severo martírio, estes são o
diabo. Pois vós não deixardes nenhum caminho embora todo o martírio seja
suportado...
„...amada
criança, mantenha esta carta escondida para que não se torne pública; senão eu
serei tão martirizado que serei digno de pena, e os guardas do calabouço seriam
decapitados... Eu escrevi esta carta em alguns dias; minhas mãos estão lerdas,
minha condição está mesmo péssima...
„... amada
criança, seis pessoas me delataram simultaneamente, tudo mentira, conseguidas à
força... E antes de serem executados eles me pediram perdão graças a Deus. Eles
na verdade só sabiam coisas boas e amáveis a meu respeito. Eles foram obrigados
a dizê-lo, como eu próprio ainda haveria de ver...
„... quando
então o carrasco me levou de volta à prisão ele me disse: "Senhor, eu lhe
peço pelo amor de Deus, confesse alguma coisa, seja ela verdade ou não. Invente
algo pois não poderás suportar o martírio que lhe é infligido e mesmo que
venhas a superá-los não serás liberto... mesmo se fosses um conde; mas depois
de todo martírio um novo se inicia, até que digas que és um bruxo; diga isso
antes que nunca mais o deixem em paz...
„...criança do
meu coração, se tiver que lhe dar um conselho então tu deves pegar o que
possuas de cartas e dinheiro e lançar-se em peregrinação por meio ano ou para
onde puderes ir por um tempo... até ver como tudo terminará...
„...esta é a
situação de muitos, e será de muitos mais se Deus não enviar algum remédio...
reze por mim, teu pai, depois de minha morte, que Anna Maria também reze por
mim, tu deves jurar veementemente que eu não sou bruxo mas sim um mártir, e eu
morro assim contido. Boa noite, pois teu pai Johanes Junius nunca mais irá te
ver
24 de julho do ano
1628




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