quarta-feira, 26 de agosto de 2015

ANÁLISE DO POEMA STELLA, DE MACHADO DE ASSIS






 Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica por
 receio de ser internado.




Mulher: musa inspiradora. Há séculos, a figura feminina desponta como o elemento catalisador da composição poética. Machado de Assis não se manteve imune a isso e nos brindou com um belo poema sobre isso.



Eis o poema Stella, do primeiro livro de poemas de Machado de Assis, Crisálidas:

Já raro e mais escasso / A noite arrasta o manto,/ E verte o último pranto / Por todo o vasto espaço. / // Tíbio clarão já cora / A tela do horizonte, / E já de sobre o monte / Vem debruçar-se a aurora. / // À muda e torva irmã, / Dormida de cansaço, / Lá vem tomar o espaço/ A virgem da manhã. / // Uma por uma, vão / As pálidas estrelas, / E vão, e vão com elas / Teus sonhos, coração. / // Mas tu, que o devaneio / Inspiras do poeta, / Não vês que a vaga inquieta / Abre-te o úmido seio? / // Vai. Radioso e ardente, / Em breve o astro do dia, / Rompendo a névoa fria, / Virá do roxo oriente. / // Dos íntimos sonhares / Que a noite protegera,/ De tanto que eu vertera/ Em lágrimas a pares, / // Do amor silencioso, / Místico, doce, puro, / Dos sonhos de futuro, / Da paz, do etéreo gozo,/ // De tudo nos desperta / Luz de importuno dia; / Do amor que tanto a enchia / Minha alma está deserta. / // A virgem da manhã / Já todo o céu domina... / Espero-te, divina, / Espero-te, amanhã. / /



O poema realiza um movimento dicotômico entre os ideais clássico e romântico. O título, à primeira vista, funciona como um nome próprio e é também a palavra latina stella, a qual significa estrela. Curiosamente, a Divina Comédia, de Dante Alighieri, termina seus três cantos – Inferno, Purgatório e Paraíso – com o mesmo léxico. A primeira estrofe se imiscui no programa clássico: o uso da prosopopeia – figura de linguagem na qual o orador ou o autor empresta características humanas a seres inanimados – se dilata em “a noite arrasta o manto,/e verte o último pranto/por todo o espaço”.
Stella carrega todo um aparato semântico já no título: é nome de mulher, assim como é o astro com luz própria. Tal qual a figura da musa inspiradora, Stella é fonte de inspiração para os versos. O programa narrativo dos versos descreve a sucessão da noite para o dia, aparentemente afiliada ao assunto parnasiano – de descrição de seres inanimados como meio de se exercitar a verve poética (basta recordar os poemas parnasianos dedicados a vasos, a muros etc.) (TRINGALI, 1994). Aparentemente, a temática parece fastidiosa e chã; contudo, há o depoimento do poeta escocês Alexander Smith (1829-1867), o qual discorre sobre a expressão da poesia em geral, independente do tema escolhido:
"Perguntar-se-á: constitui então a poesia toda expressão de emoção? Respondo que sim, no concernente ao caráter específico da poesia, e ao que a distingue da prosa. Toda expressão de emoção é poesia, do mesmo modo, mas apenas do mesmo modo, que toda sucessão de sons, com sentido, chamamos música a tais sucessões ou harmonias apenas quando combinadas em peças rítmicas de certa duração (…). Por linguagem da emoção, porém, entendo a linguagem em que essa emoção se vaza – e não a descrição da emoção, ou a afirmação de que é sentida. Tal descrição ou afirmação é a mera comunicação de um fato – a afirmação de que sinto alguma coisa. Isso é prosa (PINA, ORG., 1984)".
Smith ainda explica que a emoção não é apenas aquilo que se vincula tão somente ao sofrimento e à exclamação. Diz que “o sentimento só pode ser expresso de modo a suscitar a simpatia de outros, (...) com referência a uma causa ou a um objeto que provoquem tal sentimento” (IDEM). Que arte não fez Machado ao elevar um tema prosaico – a sucessão dos dias e das noites – ao epíteto de artefato artístico e poético?
Essa sucessão trabalha com a metáfora, entendida como uma transposição de significantes com um significado sub-reptício (a palavra “metáfora” provém do verbo grego “methapéro”, transportar). Do certo – dias e noites –, o poeta assinala a mutabilidade dos eventos no mundo. Há, logo, dois momentos nas primeiras estrofes do poema: a noite, que cede espaço ao clarão do dia. Notemos o quanto a escuridão carece de simpatia – “à muda e torva irmã” – ao ser confrontada com a radiosa luz solar. Nem mesmo as estrelas, decantadas em tantos outros poemas de outras épocas e autores, merecem sorte melhor: “uma por uma, vão/as pálidas estrelas,/e vão, e vão com elas/teus sonhos, coração”. 



Acareados os elementos dicotômicos – noite e dia, o poema volve-se para o abstrato: o amor, visto como entidade etérea: “do amor silencioso./místico, doce, puro,/dos sonhos de futuro,/da paz, do etéreo gozo”. O amanhecer só é válido pela possibilidade de se concretizar a faina de amar: “a virgem da manhã/já todo o céu domina.../espero-te, divina,/espero-te, amanhã”. O influxo de ir e vir é algo absurdamente recorrente na história da humanidade. No Egito antigo, por exemplo, as cheias das águas do rio Nilo e sua posterior amofinação reificaram o mito de Osíris, a mais importante lenda da mitologia egípcia (o deus Osíris fora assassinado pelo irmão invejoso Seth e, após ter sido retalhado pelo usurpador do trono, fora ressuscitado pela esposa Ísis – a sucessão da morte e da vida, um ciclo infinito). Há tantos outros exemplos dessa mutabilidade temporal: o caso do samsara (em sânscrito, perambulação; seria o incessante devir de vida e de morte na natureza. É um princípio presente no Hinduísmo, no Budismo e no Jainismo, três importantes tradições filosóficas hindus). Entende-se que a questão da morte – o fim – não é absoluta: o próprio poema enxerga um recomeço, ao trazer o alento da amanhã.




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