Uma
criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica por
receio de ser internado.
Publicado em literatura por Gilmar
Luís Silva Júnior
Mulher: musa
inspiradora. Há séculos, a figura feminina desponta como o elemento catalisador
da composição poética. Machado de Assis não se manteve imune a isso e nos
brindou com um belo poema sobre isso.
Eis o poema Stella, do primeiro livro de poemas de Machado de Assis, Crisálidas:
Eis o poema Stella, do primeiro livro de poemas de Machado de Assis, Crisálidas:
Já raro e mais escasso / A noite arrasta o manto,/ E verte o último pranto / Por todo o vasto espaço. / // Tíbio clarão já cora / A tela do horizonte, / E já de sobre o monte / Vem debruçar-se a aurora. / // À muda e torva irmã, / Dormida de cansaço, / Lá vem tomar o espaço/ A virgem da manhã. / // Uma por uma, vão / As pálidas estrelas, / E vão, e vão com elas / Teus sonhos, coração. / // Mas tu, que o devaneio / Inspiras do poeta, / Não vês que a vaga inquieta / Abre-te o úmido seio? / // Vai. Radioso e ardente, / Em breve o astro do dia, / Rompendo a névoa fria, / Virá do roxo oriente. / // Dos íntimos sonhares / Que a noite protegera,/ De tanto que eu vertera/ Em lágrimas a pares, / // Do amor silencioso, / Místico, doce, puro, / Dos sonhos de futuro, / Da paz, do etéreo gozo,/ // De tudo nos desperta / Luz de importuno dia; / Do amor que tanto a enchia / Minha alma está deserta. / // A virgem da manhã / Já todo o céu domina... / Espero-te, divina, / Espero-te, amanhã. / /
O poema realiza um movimento dicotômico entre
os ideais clássico e romântico. O título, à primeira vista, funciona como um
nome próprio e é também a palavra latina stella, a qual significa estrela.
Curiosamente, a Divina Comédia, de Dante Alighieri, termina seus três cantos –
Inferno, Purgatório e Paraíso – com o mesmo léxico. A primeira estrofe se
imiscui no programa clássico: o uso da prosopopeia – figura de linguagem na
qual o orador ou o autor empresta características humanas a seres inanimados –
se dilata em “a noite arrasta o manto,/e verte o último pranto/por todo o
espaço”.
Stella carrega todo um aparato semântico já
no título: é nome de mulher, assim como é o astro com luz própria. Tal qual a
figura da musa inspiradora, Stella é fonte de inspiração para os versos. O
programa narrativo dos versos descreve a sucessão da noite para o dia,
aparentemente afiliada ao assunto parnasiano – de descrição de seres inanimados
como meio de se exercitar a verve poética (basta recordar os poemas parnasianos
dedicados a vasos, a muros etc.) (TRINGALI, 1994). Aparentemente, a temática
parece fastidiosa e chã; contudo, há o depoimento do poeta escocês Alexander
Smith (1829-1867), o qual discorre sobre a expressão da poesia em geral,
independente do tema escolhido:
"Perguntar-se-á: constitui então a
poesia toda expressão de emoção? Respondo que sim, no concernente ao caráter
específico da poesia, e ao que a distingue da prosa. Toda expressão de emoção é
poesia, do mesmo modo, mas apenas do mesmo modo, que toda sucessão de sons, com
sentido, chamamos música a tais sucessões ou harmonias apenas quando combinadas
em peças rítmicas de certa duração (…). Por linguagem da emoção, porém, entendo
a linguagem em que essa emoção se vaza – e não a descrição da emoção, ou a
afirmação de que é sentida. Tal descrição ou afirmação é a mera comunicação de
um fato – a afirmação de que sinto alguma coisa. Isso é prosa (PINA, ORG.,
1984)".
Smith ainda explica que a emoção não é apenas
aquilo que se vincula tão somente ao sofrimento e à exclamação. Diz que “o
sentimento só pode ser expresso de modo a suscitar a simpatia de outros, (...)
com referência a uma causa ou a um objeto que provoquem tal sentimento” (IDEM).
Que arte não fez Machado ao elevar um tema prosaico – a sucessão dos dias e das
noites – ao epíteto de artefato artístico e poético?
Essa sucessão trabalha com a metáfora,
entendida como uma transposição de significantes com um significado
sub-reptício (a palavra “metáfora” provém do verbo grego “methapéro”,
transportar). Do certo – dias e noites –, o poeta assinala a mutabilidade dos
eventos no mundo. Há, logo, dois momentos nas primeiras estrofes do poema: a
noite, que cede espaço ao clarão do dia. Notemos o quanto a escuridão carece de
simpatia – “à muda e torva irmã” – ao ser confrontada com a radiosa luz solar.
Nem mesmo as estrelas, decantadas em tantos outros poemas de outras épocas e
autores, merecem sorte melhor: “uma por uma, vão/as pálidas estrelas,/e vão, e
vão com elas/teus sonhos, coração”.
Acareados os elementos dicotômicos – noite e
dia, o poema volve-se para o abstrato: o amor, visto como entidade etérea: “do
amor silencioso./místico, doce, puro,/dos sonhos de futuro,/da paz, do etéreo
gozo”. O amanhecer só é válido pela possibilidade de se concretizar a faina de
amar: “a virgem da manhã/já todo o céu domina.../espero-te, divina,/espero-te,
amanhã”. O influxo de ir e vir é algo absurdamente recorrente na história da
humanidade. No Egito antigo, por exemplo, as cheias das águas do rio Nilo e sua
posterior amofinação reificaram o mito de Osíris, a mais importante lenda da
mitologia egípcia (o deus Osíris fora assassinado pelo irmão invejoso Seth e,
após ter sido retalhado pelo usurpador do trono, fora ressuscitado pela esposa
Ísis – a sucessão da morte e da vida, um ciclo infinito). Há tantos outros exemplos
dessa mutabilidade temporal: o caso do samsara (em sânscrito, perambulação;
seria o incessante devir de vida e de morte na natureza. É um princípio
presente no Hinduísmo, no Budismo e no Jainismo, três importantes tradições
filosóficas hindus). Entende-se que a questão da morte – o fim – não é
absoluta: o próprio poema enxerga um recomeço, ao trazer o alento da amanhã.




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