Presidente diz que gravidade do
quadro econômico ficou clara após eleição.
Erro de avaliação ou
incompetência?
AFONSO BENITES Brasília
El País – O Jornal Global
Pela
primeira vez desde que se viu inserida em uma grave crise que atinge o seu governo, a presidenta do
Brasil, Dilma Rousseff, admitiu que subestimou os efeitos da turbulência
econômica no ano passado. Durante a campanha eleitoral que resultou em sua
reeleição entre agosto e outubro, ela negava os problemas, enquanto seus
adversários previam uma série de erros na condução da política econômica.
Nesta
segunda-feira, indagada sobre o que poderia ter errado enquanto governante, a
presidenta ensaiou um raro mea-culpa. “Fico pensando o que é que podia ser que
eu errei. Em ter demorado tanto para perceber que a situação podia ser mais
grave do que imaginávamos. E, portanto, talvez, nós tivéssemos de ter começado
a fazer uma inflexão antes”.
Rousseff
disse que só percebeu a gravidade do problema em novembro ou dezembro, depois
de reeleita. As declarações foram dadas a repórteres de três jornais
brasileiros, Folha de S. Paulo, O Globo e O Estado de
S. Paulo.
A petista
declarou ainda que sua equipe econômica não esperava que haveria uma queda tão
grande na arrecadação de impostos e que não havia nenhum indício de “uma coisa
dessa envergadura”.
Ainda assim,
Rousseff defendeu as políticas adotadas em seu primeiro Governo (2011-14). Ela
ressaltou que sua gestão manteve a desoneração da folha de pagamentos no valor
de 25 bilhões de reais e concedeu subsídios para os empréstimos de longo prazo
feitos no Brasil.
“O que é
possível considerar é que poderia ter começado [a fazer] uma escadinha. Agora,
eu nunca imaginaria, ninguém imaginaria que o preço do petróleo cairia de 105
dólares [o barril] em abril, para 102 dólares em agosto, para 43 dólares hoje.
A crise começa em agosto, mas só vai ficar grave, grave mesmo, entre novembro e
dezembro. É quando todos os estados da Federação percebem que a arrecadação
caiu”, declarou.
Sobre a
economia internacional, que agora vê o início de uma crise chinesa, Rousseff disse que o futuro é imprevisível. Ela
se mostrou chocada, segundo a Folha, com as informações que
circulavam no mercado financeiro de que seu ministro da Fazenda, Joaquim Levy,
estaria de saída do cargo porque na segunda-feira estava em viagem aos Estados
Unidos, sem compromisso oficial. Conforme Rousseff é mentira que ele deixaria o
cargo e a viagem ocorreu por motivos familiares. "Foi ver a menina [filha]
dele, que vai morar na China".
Perda de apoio
A presidenta
convidou os três jornais para essa entrevista no mesmo dia em que o vice-presidente Michel Temer deixou a articulação
política para se dedicar a assuntos mais amplos do Governo. A decisão do vice
assustou mercados e o mundo político. Ou seja, Temer deixou de negociar
cargos e emendas parlamentares com deputados e senadores, para debater apenas os
principais projetos de interesse da gestão que tramitam no Congresso.
O
desembarque de Temer da articulação política foi vista como um movimento
natural pela presidenta. Ela disse que o vice-presidente cumpriu o seu papel ao
ajudar o Governo a aprovar o ajuste fiscal. “O Temer tem sido de imensa
lealdade comigo. Nós tivemos uma primeira fase da articulação política
coordenada pelo Temer. Qual é o resultado dessa fase? Um sucesso. Conseguimos
aprovar as medidas do reequilíbrio fiscal. E estabelecemos uma relação com o
Congresso. A gente perde e a gente ganha no Congresso. Cada vez que a gente
perde é uma crise? Não é”.
Corrupção e Lava Jato
Sobre as
investigações conduzidas pelo juiz Sérgio Moro, que fez seu Governo estremecer
com as revelações sobre a corrupção na Petrobras, a presidenta afirmou que
“ninguém pode interromper esse processo”. “Quanto mais rápidas as
investigações, melhor”. A presidenta disse ainda que não tinha imaginado que
petistas estivessem envolvidos no esquema. Questionada se foi surpreendida, ela
disse: “Fui. E lamento profundamente”.
Reforma administrativa
Além de
mudar sua avaliação sobre a crise econômica, nesta semana Rousseff também mudou
sua opinião sobre o tamanho da máquina pública. Até então, ela defendia com
unhas e dentes a manutenção de todos os seus 39 ministérios. Na segunda-feira,
seu Governo anunciou que pretende reduzir até de pastas e cortar ao menos 1.000 dos
22.000 cargos comissionados, que são de servidores sem concursos públicos. “Não
posso dizer quem é que está marcado para morrer porque não tenho certeza,
primeiro, se vai morrer”, disse.
Nesse ponto, o desafio da
presidenta será obter o apoio dos seus aliados para esses cortes de cargos, sem
perder a sustentação de seu Governo no Congresso Nacional. Atualmente, há nove
partidos ocupando ministérios. O PT, com 13, e o PMDB, com seis, são os que
mais têm cargos no primeiro escalão governista. Mas até mesmo legendas que já
anunciaram rompimento com Rousseff, como o PDT e o PTB, mantêm o comando de
algumas pastas. Assim, o corte de ministérios deve ser seguido de uma reforma
ministerial entre os que sobreviverem.

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