Sílvia Marques
Publicado por Sílvia Marques
Talvez nenhum recurso
utilizado por Hitchcock tenha sido tão loquaz quanto a sua estética misógina.
As mulheres loiras são suas vítimas preferenciais.
Sean Connery e Tippi Hedren em Marnie,
confissões de uma ladra
Alfred Hitchcock ficou célebre como o mestre
do suspense. Diferentemente de outros nomes importantes do cinema como Buñuel,
Bergman e Fellini que se centraram respectivamente em criticar as instituições,
promover uma profunda sondagem psicológica e devassar o mundo do espetáculo,
colocando-o como única saída para a vida, Hitchcock se centrou na arte da
catarse.
Se o cinema de Buñuel foi mais político, o de Bergman mais psicológico e o de Fellini mais metalinguístico, o de Hitchcock foi mais sensorial. Os primeiros foram mais do que cineastas. Eles foram filósofos. Hitchcock foi mais um esteta que utilizou como sua principal matéria-prima os nossos medos. Tais medos foram ressaltados por meio de alguns clichês estéticos que funcionavam muito bem.
Jogo de luz e sombras, trilhas sonoras
angustiantes, personagens femininas com rostos gelidamente sexy, personagens
masculinos ambíguos, longas expectativas e um mergulho nas fobias humanas.
Em Suspeita, quando o personagem de Cary
Grant leva um copo de leite à sua esposa vivida por Joan Fontaine, não sabemos
se ele está envenenado ou não. O copo parece iluminado conduzindo os nossos
olhos para ele e aumentando a nossa ansiedade em relação à suspeita proposta
pelo filme.
Cary Grant em Suspeita
Em Marnie, confissões de uma ladra, a
tempestade tinge o céu com a cor vermelha aos olhos do espectador que enxergam
por meio dos olhos da atormentada Marnie.
Em Um corpo que cai, sentimos tontura quando
o personagem protagonista interpretado por James Stewart sente vertigem ao
subir numa pequena escada e se lembrar de um grave acidente.
E tanto em filmes coloridos como em preto e
branco, Hitchcock trabalhava muito bem as cores ou a falta delas. Quando Marnie
aparece pela primeira vez e de costas , usando cabelos negros e segurando uma
bolsa amarela , as cores gritam.
Tippi Hedren como a perigosa e atormentada
Marnie
Em Um corpo que cai, o jogo de cores de
Madelaine nos remete realmente a pintura que ela tanto observa no museu e Jodie
com sua maquiagem exagerada e roupas vulgares nos arrasta para um mundo
cruelmente real, bem diferente dos tons pasteis e etéreos que circundam a
misteriosa , angelical e inacessível Madelaine.
Kim Novak como Madelaine
Madelaine aparece como um lindo sonho para o
detetive aposentado John
Mas talvez nenhum recurso utilizado por
Hitchcock tenha sido tão loquaz quanto a sua estética misógina. As mulheres
loiras são suas vítimas preferenciais. Em Os pássaros, a professora atraente e
morena vivida por Suzanna Pleshette morre no meio da escada da sua casa,
atacada por pássaros. Sua morte é violenta, porém, rápida. Por outro lado,
Melanie, a personagem vivida por Tippi Hedren passa horrores nos bicos das aves
e nas mãos do diretor.
Tippi Hedren como Melanie
Marion de Psicose, a desafortunada secretária
que passa a noite no hotel de Norman Bates depois de roubar uma grande quantia
em dinheiro também é uma loira. De seios fartos, a atriz vive uma personagem
que abre o filme fazendo sexo com um homem que não é o seu marido. Depois rouba
a empresa onde trabalha para poder se casar com ele. Ela se arrepende e decide
voltar atrás, mas Norman Bates a assassina. Mais do que isso. Ele a assassina no
chuveiro. Norman Bates esfaqueia uma mulher nua. Enfim, a mulher sexy,
impulsiva, que se entrega ao amor e comete um delito por ele, é punida mesmo
estando arrependida.
Janet Leigh como Marion
O mesmo ocorre com Jodie de Um corpo que cai.
Não importa o quanto ela esteja arrependida. A linda loira é castigada por suas
mentiras e principalmente por sua sedução.
Marnie tem um final mais leve e feliz, mas
passa todo o filme angustiada e acuada, morrendo de medo de ser tocada pelo
personagem de Sean Connery, o que provocou risos na atriz Tippi Hedren nos
bastidores.
Em uma cena marcante do filme, o personagem
vivido por Sean Connery puxa o robe da esposa e a vê desnudada e catatônica,
ressaltando a sensualidade feminina como uma faca de dois gumes: o que as tornam
tão poderosas também as tornam altamente vulneráveis.
Marnie tenta se afogar para fugir do marido
A paixão de Marnie por cavalos,
possivelmente, é uma simbologia da sua natureza indomável, selvagem e frágil
simultaneamente
Em Janela indiscreta, a loira da vez é Lisa
Carol, vivida pela inacreditavelmente linda Grace Kelly. Ela não chega a ser
uma vítima, mas se coloca em risco para ajudar o homem amado a desvendar um
mistério. A delicada, rica e belíssima jovem que poderia exigir do namorado um
mar de atenções e mimos, se coloca diante do personagem de James Stewart de
forma servil.
Cena de Janela indiscreta: voyeurismo levado
às últimas consequências
Em Frenesi, penúltimo filme de Hitchcock, uma
homem impotente assassina mulheres loiras, estrangulando-as com uma gravata.
Como ele não consegue saciar o desejo que sente por elas, as assassina, fazendo
uma forte referência a Psicose. Norman Bates é um impotente no sentido
emocional. Como ele não consegue lidar com o desejo despertado por Marion, ele a
assassina, extravasando o erotismo reprimido com violência.
Frenesi
Frenesi
Entrar no universo de Hitchcock é mergulhar
num mundo de desejos reprimidos e muito temor da sexualidade. Falsamente
castos, seus filmes apresentam uma carga erótica brutal e perversa, em que as
belas loiras encarnam simultaneamente o papel de vítimas e de transgressoras
que devem ser podadas e punidas.













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