Jornalista,
repórter de literatura, mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano. fellipetorres@icloud.com.
Publicado por Fellipe
Torres
Símbolo artístico
pioneiro do Brasil no exterior, cantora saía de cena há seis décadas. Saiba
como a "falsa baiana" abriu caminho para a projeção de outros
artistas em terras estrangeiras.
De origem humilde, a segunda das seis filhas
do barbeiro José Maria Pinto cresceu num Rio de Janeiro cuja população era
estimada em 1 milhão de habitantes, sendo 200 mil deles portugueses natos.
Habilidosa na costura e rápida no aprendizado de novos idiomas, foi moldada
pela malandragem e boemia do bairro da Lapa. Desde jovem sonhava ser atriz ou
cantora, numa época anterior à Era de Ouro do rádio. Em fins dos anos 1920, o
veículo tomava forma, enquanto o cinema deixava de ser mudo. A partir da
primeira gravação de Carmen, em 1929, o sucesso veio quase instantaneamente.
No ano seguinte, com Pra você gostar de mim
(Taí), venderia 35 mil discos, o equivalente a 3 milhões e meio de hoje,
segundo o biógrafo Ruy Castro. A década começava com a legitimação do samba e
das marchinhas de Carnaval enquanto ritmos populares. Estrelou o primeiro dos
mais de 20 filmes da carreira, O carnaval cantado (1932), dirigido por Adhemar
Gonzaga. Logo se tornou a artista mais bem paga do país.
O ano de 1939 foi um divisor de águas por
vários motivos. Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, Carmen Miranda vestiu
pela primeira vez o traje com o qual seria eternamente lembrada, inspirada nas
vendedoras de frutas da Bahia. Com ajuda do governo de Getúlio Vargas,
interessado em investir na imagem do país no exterior, a cantora se mudou para
os EUA, onde se tornou fenômeno de cultura de massa. “Meus queridos amigos,
sigo para Nova York, onde vou apresentar a música da nossa terra. Às vezes
tenho medo da responsabilidade. Lembrem-se de mim que eu nunca os esquecerei”,
pronunciou, antes de embarcar.
Foi bem recebida no exterior. Subitamente,
estava na tevê, no rádio, estrelando espetáculos na Broadway e filmes em
Hollywood. Era a “brazilian bombshell” (“bomba brasileira”). Segundo a
pesquisadora da PUC-RS Eliane Raslan, a participação de Carmen Miranda no
cinema, particularmente, tinha papel catártico: “Enquanto a população norte-americana
ia assisti-la para esquecer da guerra, os brasileiros se sentiam aceitos (ou
reconhecidos) diante da representante nacional no cinema estrangeiro”.
Em depoimento ao documentário Bananas is my
business (1995), de Helena Solberg, o músico Aloysio Oliveira descreve a
sensação da cantora diante dos norte-americanos. “Ela não entendia o que
acontecia, porque gostavam muito, mesmo sem entender o que ela cantava. Mas não
era a música que os impressionava. Eram fascinados por ela. Eu ficava olhando
para o rosto do público e os olhos de todo mundo ficavam grudados nela, como se
estivessem hipnotizados. É como se ela tivesse outra dimensão”.
Com a aproximação do fim da Segunda Guerra
Mundial, a carreira dela se encaminhava para um desfecho. Por causa do ritmo
frenético de shows, consumia cada vez mais remédios para dormir e estimulantes
para acordar. Em 1954, voltou ao Brasil sob forte depressão, onde passou quatro
meses antes de retornar aos EUA. Em agosto do ano seguinte, após participar de
programa de tevê, morreu em casa, vítima de colapso cardíaco. “É difícil
compará-la com qualquer outro artista, porque teve sucesso extraordinário tanto
no Brasil quanto no exterior. Um ícone. A imagem com as frutas na cabeça se
tornou parte da cultura dos EUA. No Brasil, há o problema da memória curta.
Existe uma geração que conhece a imagem, mas desconhece a história de Carmen”,
pontua Helena.
CARMEN NO RECIFE
Quatro meses após a passagem do Graf
Zeppellin pelo Recife, em 1932, quando a cidade possuía cerca de 295 mil
habitantes e 2 mil carros, atracaria no porto o navio Ruy Barbosa, de onde
desembarcaria Carmen Miranda. Com menos de dois anos de carreira, havia viajado
com o pai para shows em Salvador e na capital pernambucana. Aqui, ficou no
Hotel Central, na Boa Vista. Em 29 de setembro, foi chamada ao palco do Santa
Isabel pelo poeta Ascenso Ferreira: “Com ela, a tragédia foi morta pelo bom
humor e a tristeza nativa se mudou em festa de batuque e bombos.
Deus permita que tu botes diamantes pela
boca!”. Lotada de rapazes, a plateia gritava: “Morena do céu!”. Na biografia de
Carmen Miranda (2005), Ruy Castro diz que a falta de estradas e as enormes
distâncias levavam os artistas a focar as carreiras no Sul e Sudeste. “Uma
excursão como essa, com tantos sacrifícios, era homenagem que o artista
prestava à região que visitava. Ela prestou a sua à Bahia e a Pernambuco”.
>>>> AS MARCAS DA PEQUENA NOTÁVEL
O que a baiana tem?
A imagem da baiana vendedora de frutas foi
aproveitada por Carmen Miranda na comédia-musical Bananas da terra (1939) para
a criação da personagem que ela incorporaria até o fim da carreira. O visual
tutti-frutti forjou um estereótipo forte, incansavelmente parodiado ao longo
dos anos.
Cor da pele
Branca, de olhos verdes e origem europeia,
Carmen Miranda se apropriou do samba, um gênero musical até então visto como
símbolo da periferia, dos negros. Foi muito criticada por “embranquecer” o samba
e tirar a percussão.
Ícone fashion
As roupas extravagantes, muitas delas
customizadas pela própria Carmen, tiveram forte impacto no mercado de moda. O
“Miranda look” foi adaptado e usado nas ruas em todo mundo ocidental, sobretudo
nos Estados Unidos. Ainda hoje, o estilo de Carmen influencia muitos
estilistas. O principal legado fashion foi o uso de turbantes.
Pequena notável
Desde a juventude, Carmen mostrava grande
habilidade com a costura e a estilização de roupas. Por muito tempo, trabalhou
em lojas de gravatas e chapéus e chegou até a confeccionar as próprias peças
para vender. Quando começou a fazer sucesso, providenciou uma sandália para
compensar a baixar estatura (1,52m). Para muitos, ela foi a inventora do hoje
popular salto plataforma.
DEPOIMENTO >>>> Helena Solberg,
cineasta "É difícil
encontrar alguém nos dias de hoje comparável a Carmen. Em relação aos
brasileiros, talvez Tom Jobim tenha se tornado tão internacional quanto... Em
outra ocasião, fiz referência a Elvis Presley pelo fato de ele ser uma pessoa
branca que começou a tocar uma música de negros. Essa foi uma transição muito
bem feita por Carmen, em relação ao samba. Ela foi muito rejeitada pela elite
brasileira da época, porque o samba era coisa do povo, não era nenhuma produção
acadêmica ou clássica. Ironicamente, além de ser branca de olhos verdes, ela
era europeia. O racismo existia e se manifestava de outras formas, como a
tentativa de tirar os negros da banda. Isso eles conseguiram. Quando Carmen
chega aos Estados Unidos, também sente isso. Em certa ocasião, o compositor
Synval Silva foi para Los Angeles encontrá-la e, quando andava ao lado dela, no
carro, as pessoas a paravam para perguntar se estava tudo bem".
BRASIL PÓS-CARMEN >>>>
Carmen Miranda inaugurou a figura do “cicerone”
brasileiro no exterior. Segundo o pesquisador pernambucano Thiago Soares,
coordenador do Grupo de Pesquisa em Mídia, Entretenimento e Cultura da UFPB, a
indústria pop precisa desses artistas para representar o país. Por isso, cada
momento histórico tem o seu cicerone, e um elemento comum a eles são as
críticas recebidas. “A intelectualidade nunca quer se enxergar nos seus
discursos de prazer, de sexualidade. Prefere trazer um tipo de representação
mais racional, mas o mundo não gira em torno do que os intelectuais pensam”.
NA ORLA DE COPACABANA
Com João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de
Moraes, a bossa nova tornou-se dos movimentos mais influentes da história da
música popular brasileira, conhecido em todo o mundo. “É o nosso jazz, um tipo
de música ligada a uma ideia de Brasil, de praia, sensualidade. Enquanto o
samba representa a periferia, a bossa nova é a música da intelectualidade, das
elites, de um Rio de Janeiro Branco”, diz Thiago Soares.
LENÇO NEM DOCUMENTO
Na década de 1960, a Tropicália surge forte
com Caetano Veloso e companhia. Assim como a bossa, revisita Carmen em espécie
de antropofagismo. Ao The New York Times, ele afirmou, em 1991: "A
canção-manifesto Tropicália, homônima da obra de Oiticica, termina com o brado
'Carmen Miranda da-da dada'. Tínhamos descoberto que ela era nossa caricatura e
radiografia. Típica menina do Rio, nascida em Portugal , usando estilização
espalhafatosamente vulgar, mas conquista o mundo e chega a ser a mulher mais
bem paga dos EUA”.
FAVELA POP
Carioca de origem humilde, Seu Jorge passa a
ganhar visibilidade no Brasil e no exterior, sobretudo a partir dos anos 2000.
Assim como Carmen, surgiu no contexto da “política de boa vizinhança” da
Segunda Guerra Mundial, ele veio no momento de Cidade de Deus para representar uma
“favela pop”, a negritude brasileira. “A favela é espécie de Gangues de Nova
York, um Bronx (bairro dos EUA) periférico”, analisa Thiago Soares.
AI SE EU TE PEGO
Em 2011, a Forbes comparou Michel Teló a
Carmen, e o apontou como primeiro ícone brasileiro após a Pequena. Ele emplacou
nas listas de músicas mais ouvidas de vários países. “Reclamaram por ele ser
sertanejo, por não ser de raiz. É urbano, loiro, faz música com conotação de
sacanagem. Representa um Brasil que não passa pelo Rio, não tem coqueiro, mas é
agrário, do Centro-Oeste. As críticas são parecidas com as recebidas por
Carmen, que não era hegemônica, mas nem por isso deixou de ser um ícone brasileiro”.
DEPOIMENTOS HISTÓRICOS>>>>
"Nenhum brasileiro de bom senso pode
ignorar o muito que Carmen Miranda fez pelo Brasil lá fora, transportando este
país na sua bagagem, ensinando a povos, que jamais haviam tomado conhecimento
de nossa existência, a cantar as nossas músicas e a adorar o nosso ritmo.
Carmen Miranda será sempre uma dívida irresgatável." Heitor
Villa-Lobos, compositor, em 1952.
"É uma honra para mim como baiana, como
mulher, poder cantar e homenagear Carmen Miranda, uma artista que levaram o
nome da Bahia para o mundo e sempre foi fonte de inspiração para o meu
trabalho”. Daniela Mercury, cantora, em 2009.
"Hoje está tudo muito diluído (sobre a
influência de Carmen nas cantoras brasileiras atuais). Ela era um charme sem
igual. Nunca houve cantora e intérprete como ela e com charme maior do que o
dela. Mas acho que Ney Matogrosso é uma Carmen Miranda" Sérgio
Cabral, pesquisador.
"Carmen teve um estilo próprio de
apresentação e de cantar. Elegante, brejeira e muito sensual, criou um estilo
muito copiado por outros artistas". César Balbi, diretor do Museu
Carmen Miranda.
"Samuel Johnson dizia que o nacionalismo
é o único refúgio dos canalhas. Ela foi uma vítima desse tipo de mentalidade,
você sente um patrulhamento ideológico. Ela tinha de se posicionar e devia
estar de saco cheio de cantar o Brasil. Quis cantar tango, mas não podia. Ela
tinha de fazer um acarajé por dia para provar sua brasilidade." José
Antônio Nonato de Barros, pesquisador.
* Publicado originalmente no site do Diário
de Pernambuco







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