A vida
segue pela contramão do óbvio e, desses nossos contrários, nascem histórias
incríveis.
Publicado por Luana Simonini
Quem nasceu em Minas
Gerais ou em quem Minas Gerais nasceu dentro do peito sabe como é bom ser
mineiro. Uma crônica em forma de verso ou um dedo de prosa na cozinha de casa,
esse texto é, na verdade, uma homenagem a quem tem um trem batendo no lugar do
coração.
Ser mineiro é comer quieto o fim das
palavras. Mineiro que é mineiro tem fome de sílaba e deve ser por isso que
guarda dentro do peito poemas inteiros. Entre tantas letras embaralhadas, o
vagão das ideias se perde e a coisa vira trem, ou o trem vira coisa.
É, o trem tá feio.
Ser mineiro é escutar no silêncio uma prosa
bonita e musicar em sotaque frases curtas. O mineiro não fala, ele canta com um
sorriso tímido no canto da boca.
Nem todo mineiro é tímido, mas todo mineiro
carrega o charme da timidez. Das bochechas coradas, do sorriso amarelo que
ganha novas cores num piscar de olhos abertos, bem abertos.
Mineiro parece não gostar de elogio, mas
gosta, pode apostar. Sempre retruca, mas cá dentro tá todo feliz.
São seus olhos. Ele diz.
Mineiro se esconde em suas montanhas, mas desmorona
em abraço apertado. Chora água doce e se derrama em cachoeira.
Ser mineiro é fazer da cozinha a melhor parte
da casa. Receber os amigos com mesa farta. Mineiro tem mesmo fome seja de letra
ou de amor.
O mineiro não se apaixona “pelas” pessoas e, sim,
“com” as pessoas. Ser mineiro é sentir as coisas sem dar nome. É se confundir
entre dois ou três beijinhos quando conhece alguém.
São três pra casar.
Ser mineiro é passar a noite inteira em um
ônibus e ainda não sair de Minas. As montanhas parecem continentes, mas fazem
tudo parecer pertim.
É logo ali.
Nunca confie em um “ali” de mineiro.
De resto, pode confiar. Seja nas reticências
que ele não diz ou nos versos dos seus poemas inteiros.
Ser mineiro é saber que as melhores coisas da
vida não são coisas.


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