Cultura/literatura
(Foi um grande cronista da literatura naCional – 1923/2004)
Publicado por Luiza Cano
O homem nasce a partir da Literatura, seu
primeiro contato com ela o faz existir, possibilitando novos mundos, e com
eles, a devastadora perdição do ser
Eu me dei conta de que a Literatura é o
nascimento dos homens como sendo Universos totais.
“Esta é a história de um jovem em desesperada
procura de si mesmo e da verdadeira razão de sua vida. Quase absorvido por uma
brilhante boêmia intelectual, seu drama interior evolui subterraneamente, pondo
a nu os equívocos fundamentais que vinham frustrando sua existência e sufocando
sua vocação (...)”
Fernando Sabino, em sua obra “Encontro
Marcado” (1956), criou o drama de uma geração, e que ainda perdura, talvez, por
ter sido uma composição semi autobiográfica, ou por ter sido uma narrativa
repleta de espelhos, na qual o leitor consegue entrever-se a todo o momento. A
narrativa conta a história de Eduardo Marciano, ela permeia desde sua infância,
passando por suas fases de crescimento, artimanhas e experiências marcantes,
como por exemplo, tudo que o levou a ter seu primeiro contato com a Literatura;
Até a fase adulta, onde já envolto por esta, perde-se em uma rotina boêmia na
cidade do Rio de Janeiro, local de suas maiores peripécias.
A ocorrência é que o drama só é de uma
geração se ele diz respeito à ela.
Talvez seja difícil imaginar sozinho, naquela
madrugada em que você se joga no sofá para assistir aquele episódio
introdutório de qualquer série; ou naquela manhã corrida: academia, louça,
comida pronta, essas e outras coisas que são compreensíveis, já que somos todos
Eduardos à procura. E, quem sabe um dia, em tempos de encontro.
Espere, respire fundo e não se desespere
antes da hora fatal.
O autor não poupou-se ao escrever o Romance,
entre relatos cotidianos, aprofundou-se, descortinando as formas, dilacerando o
corpo e descobrindo o âmago, mostrou-nos o preço pago por Eduardo Marciano ao
deparar-se com a arte da leitura e escrita, que durante todo o Romance procura
angustiadamente a si mesmo, mas não se dá conta do maior recôndito: só existiu
a partir da Literatura. Ou seja, se nós somos Universos inteiros, a Literatura
é o famoso Big Bang, e Fernando Sabino mostrou-nos isso com êxito.
O livro é dividido em duas parte, a primeira:
“A procura”; a segunda: “O encontro”. Na primeira, apesar de diversas situações
que imploram por reação, Eduardo passa alheio pela vida, cercado de momentos
intensos, inclusive o suicídio de seu melhor amigo. Ao sentir-se incomodado
como espectador adquire a percepção de que nunca havia tido um encontro consigo
mesmo. E é aí que entra o Não ser: não vivendo a vida integralmente, a
existência fenece.
Ainda na primeira parte, Eduardo em uma busca
incessante por si e então pelo sentido da vida, depara-se com a Literatura, a
leitura e escrita. À vista disso, ao ganhar uma máquina de escrever dá início à
sua existência, já que criando contos, criava a si mesmo, e lendo o que quer
que fosse chamado de Literário, expandia os limites internos.
Ele não era nulo, era quase isso: um projeto
de existência que necessitava de uma única movimentação para iniciar seu
nascimento enquanto Ser, bastou uma explosão! Então Eduardo tornou-se Universo,
e comparado ao que era quando semente literária, passou a sentir-se enorme, no
entanto, insignificante, pelo fato de que tantos outros universos diferentes expandiam-se
igualmente, uns maiores, causadores de inveja; outros menores, causadores de
piedade. Então, o conflito aumenta à medida que o espaço diminui. O combate
inicial é externo.
Na segunda parte: Ao passo que existia,
perdia-se.
Eduardo continuou a encher suas estantes,
adquirindo bibliografias, a fim de nutrir o vícios de explorar mistérios, criar
mundos obscuros, cada um à sua maneira, composto de matérias específicas. Ele
descobre esses mundos, e não contente, experimenta-os alvoroçadamente até devastar
suas superfícies rúpteis; arrasado por perceber que os objetos mais importantes
faziam parte dele, mas não o eram, entra em flagelo sufocante. O combate nesse
momento é interno.
Para entender o que supostamente Sabino
trouxe nessa obra, é necessário tão somente trazer para o próprio cotidiano.
Nossos primeiros contatos profundos com a literatura nos fazem nascer; já não
somos dinamites, como Friedrich Nietzsche mesmo dizia ser, explodimos e
tornamo-nos parte do cosmos. Não é preciso ser cientista ou teórico para saber:
a literatura foi o Big Bang que nos criou. Os livros são mundos plenos. As
estrelas, líricas primorosas.
Peço que leia o livro, e desde já escrevo as
palavras que Eduardo Marciano deixou de dizer e faço-as minhas e de quem mais
ansiar: Que perdoem-nos os já escritores, Universos formados e superlotados de
conteúdos poéticos, fundamentações teóricas, conhecimentos científicos, ou dons
artísticos; Pecamos no pensamento e na atitude de escrever, carecemos de tudo e
mais um pouco daquilo que grandes autores tinham: a aceitação do preço a ser
pago pela Literatura; a dor de ver-se intrinsecamente, de não poder ser
individual onde há vários de nós que devem ser respeitados como outros, e por
isso perceber que estamos e estaremos sozinhos, de nascer para encontrar-se e
no segundo seguinte ascender na loucura até perder-se por completo, como
Eduardo Marciano, como o próprio Fernando Sabino.
Caso tenha lido, permita-me lhe fazer um
adendo, lembro-me que despedia de Sabino quando ele repetiu palavras que
tornaram-se conselhos: “Fazer da queda um passo de dança, do medo uma
escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.”
© obvious: http://obviousmag.org/literariamente/2015/o-dia-em-que-tive-um-encontro-marcado-com-fernando-sabino.html#ixzz3tUf2YKNj
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