Literatura: artigo
Colaboração de Fernando Alcoforado*
Imigrante é
aquele que entra em um país estrangeiro com o objetivo de residir ou trabalhar.
O imigrante é visto pela perspectiva do país que o acolhe como o indivíduo que
veio do exterior. Stuart Hall (Hall, S. The question of cultural identity,
Cambridge, 1992) identifica duas possíveis respostas adaptativas por parte de
imigrantes: tradução e tradição. Tradução é uma resposta baseada no sincretismo
em que imigrantes que convivem com uma nova cultura buscam desenvolver novas
formas de expressão que são inteiramente divorciadas de suas origens. Tradução
é, portanto, o resultado da integração dos imigrantes na sociedade que os
recepciona. Tradição significa fundamentalismo étnico e/ou religioso voltado
para a redescoberta de suas origens pelos imigrantes. A tradição envolve a
busca das certezas do passado. Tradição é, portanto, o resultado da falta de
integração dos imigrantes na sociedade que os recepciona.
Segundo
Schaetti (SCHAETTI, B. Phoenix rising: a question of cultural identity,
Transition Dynamics, 1999), um dos efeitos do processo migratório é o que tem a
denominação de marginalidade cultural que descreve uma experiência típica aos
imigrantes que estão expostos a duas ou mais tradições culturais. Tais povos
não tendem a se posicionar confortavelmente em qualquer das culturas em que
estão expostos, mas sim se colocando à margem delas. Esta é situação dos
imigrantes e, também, dos filhos de imigrantes na Europa e nos Estados Unidos.
Os filhos de imigrantes nascidos e educados no país de acolhimento enfrentam
maiores dificuldades do que os filhos dos nativos e sentem-se mais
discriminados do que os próprios imigrantes, alerta a OCDE.
No artigo
acima citado que aborda a questão dos imigrantes, a OCDE destaca as
"persistentes desvantagens que os filhos de imigrantes nascidos, criados e
educados no país enfrentam quando comparados com os filhos de, pelo menos, um
progenitor nativo". Os filhos de imigrantes nascidos no país de
acolhimento representavam, em 2008, 5,4% das pessoas com idades entre 15 e 34
anos, enquanto 14,4% da mesma faixa etária eram estrangeiras nos países da
OCDE. As dificuldades são notadas no acesso ao mercado de trabalho e na
qualidade dos empregos que os filhos dos imigrantes encontram. Na média dos 34
países da OCDE, a taxa de desemprego dos filhos de imigrantes nascidos no país
de acolhimento é 13,8%, sete pontos percentuais acima da taxa de desemprego dos
descendentes de nativos. Também a taxa de jovens filhos de imigrantes entre os
15 e os 34 anos que não estão a trabalhar nem a estudar (17%) é cinco pontos
percentuais mais alto do que a dos nativos. Além disso, os filhos dos
imigrantes têm menos probabilidades de encontrar emprego no setor público,
apesar de terem a nacionalidade do país onde residem. Em todos os países da
OCDE, o sentimento de pertencer a um grupo discriminado é mais frequente entre
os filhos dos imigrantes (23%) do que entre pessoas que nasceram no estrangeiro
(14%), acrescenta a organização.
Outro efeito
das imigrações populacionais é, segundo Schaetti (1999), a marginalidade
encapsulada que corresponde à situação de imigrantes que se sentem inseguros no
novo ambiente. Eles se sentem frequentemente alienados, enfraquecidos,
insatisfeitos e com a 2 vida desprovida de sentido. Os marginalizados
encapsulados se isolam. Eles não enxergam um grupo social no país com o qual
possa estabelecer uma relação. Um bom exemplo de imigrantes e filhos de
imigrantes que apresentam esta característica são os muçulmanos que são vistos
como ameaça aos residentes nativos de países da União Europeia, sobretudo, na
era atual de terrorismo e de fundamentalismo islâmico. São os imigrantes ou
filhos de imigrantes com marginalidade encapsulada de origem muçulmana que se
constituem em massa de manobra para ações terroristas pelo Estado Islâmico como
as que atingiram Paris e Bruxelas recentemente. Ocorre com os imigrantes e
filhos de imigrantes que professam o islamismo o que Stuart Hall (1992)
denomina Tradição que é a busca das certezas do passado como resultado da falta
de sua integração nas sociedades que os recepcionam.
As
dificuldades de integração da população imigrante à França, atirada aos
subúrbios e submetida ao preconceito, ao desemprego e à falta de apoio do
Estado francês contribui para a marginalização (cultural ou encapsulada) dos imigrantes.
Assim como nos subúrbios de Paris, a população negra dos bairros periféricos de
Londres, em sua maioria advinda das antigas colônias caribenhas, afirmava
sofrer com intensa e injustificada repressão policial, além do racismo e do
desemprego, combustível para a desesperança. As autoridades públicas, bem como
a imprensa classificaram os distúrbios que se seguiram como puros atos de
violência e vandalismo, negligenciando os profundos problemas sociais que
assolavam a população imigrante.
Finalmente,
Schaetti (1999) conclui que o terceiro efeito das imigrações populacionais é o
da marginalidade construtiva que descreve a situação em que os imigrantes são
hábeis para se mover facilmente e poderosamente entre diferentes tradições
culturais, agindo apropriadamente, se sentindo em casa e, ao mesmo tempo,
mantendo um integrado senso multicultural de si próprio. Os povos
marginalizados construtivos tendem a colocar sua experiência multicultural para
um bom uso. Globais nômades reconhecem que os conhecimentos e competências que
eles adquiriram através de sua mobilidade internacional podem ajudar nas suas
metas pessoais e profissionais. Esta é a situação dos judeus e seus
descendentes que, além de manterem sua identidade cultural com a comunidade
judaica e, em particular, com o Estado de Israel, se integram com os países que
os recepcionam. Ocorre com os judeus o que Stuart Hall (1992) denomina Tradução
que é o resultado de sua efetiva integração nas sociedades que os recepcionam.
É oportuno
observar que o refugiado é, também, um imigrante que é forçado a buscar outro
país onde viver. O refugiado é toda a pessoa que, em razão de fundados temores
de perseguição devido à sua raça, religião, nacionalidade, associação a
determinado grupo social ou político, se refugia fora de seu país de origem e
que, por causa dos ditos temores, não pode ou não quer regressar ao mesmo, ou
devido a grave e generalizada violação de direitos humanos, é obrigado a deixar
seu país de nacionalidade para buscar refúgio em outros países. Esta é a
situação dos milhares de refugiados das guerras do Afeganistão e do Iraque e
das intervenções predatórias na Líbia e na Síria lideradas pelos Estados Unidos
e pela OTAN que devastaram sociedades inteiras e mataram centenas de milhares
de homens, mulheres e crianças.
A ascensão
do Estado Islâmico (ISIS) e as guerras civis em curso no Iraque e na Síria são
o produto da devastação do Iraque pelos Estados Unidos, seguida do apoio
norte-americano e de seus aliados às milícias islâmicas na Síria. Bush, Cheney,
Rumsfeld, Rice, Powell e outros do governo Bush, que travaram uma guerra de
agressão no Iraque com base em mentiras continuam totalmente impunes. O governo
Obama é o principal responsável pelas catástrofes que desencadeou na Líbia e na
Síria e continua impune. Todos eles são responsáveis pelo que acontece hoje nas
fronteiras da Europa, que deve ser visto, mais do que uma tragédia, como um
prolongado e contínuo crime de guerra.
A questão
dos imigrantes, a crise dos refugiados e o aniquilamento do Estado Islâmico são
os maiores desafios das potências ocidentais do século 21. A questão dos
imigrantes e de seus descendentes só será solucionada com sua integração às
sociedades onde residem. A atual crise de refugiados não vai ser resolvida, a
não ser com a recepção pelos países europeus e pelos Estados Unidos de todos
que aspiram se afastar das áreas de conflito de onde vieram. Os Estados Unidos
e a União Europeia que foram responsáveis pela desorganização e devastação dos
países dos refugiados têm o dever moral de assisti-los e abrigá-los na atual
conjuntura. A ONU tem que sair também de sua passividade e passar a atuar com
efetividade para evitar o agravamento desta crise humanitária. Por sua vez, o
aniquilamento do Estado Islâmico, que possibilitaria reduzir o fluxo de
refugiados, deveria ser acompanhado de um grande esforço na promoção do
desenvolvimento econômico e social dos países do Oriente Médio e na construção
da paz, especialmente, entre sunitas e xiitas e palestinos e israelenses.
*Fernando Alcoforado, 76, membro da Academia Baiana de
Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento
Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor
nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento
regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros
Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a
Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o
Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento
do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de
Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e
Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do
Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA,
Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social
Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller
Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento
Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010),
Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento
global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os
Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV,
Curitiba, 2012) e Energia no Mundo e no BrasilEnergia e Mudança Climática
Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015). Possui blog na
Internet (http://fernando.alcoforado.zip.net). E-mail: falcoforado@uol.com.br.

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