Mundo: tradição japonesa
(espada dos samurais)
Por Rejane Borges
“Gosta das
cores de folhas secas ao chão. E das cores das folhas velhas dos livros.”
Um instrumento que simboliza a
cultura japonesa, numa época de glórias e inglórias, manchada pelo sangue e
marcada pela inabalável tradição, carrega a alma de uma era.
© Wikicommons.
No Japão feudal, estado submerso por
ditaduras militares e isolado do resto do mundo, na era que percorreu os anos
entre 1100 e 1867, existiram homens que personificaram a honra e glorificaram a
tradição. A história os chama de samurais, homens de prumo forte, homens que
alcançaram as mais difíceis virtudes por meio da disciplina. Homens com apurado
senso de justiça, lealdade e fidelidade para com eles mesmos, para com o
próximo, para com seus líderes, seu país e sua história. Eram guerreiros não
somente pela bainha preenchida ou pelos combates, mas porque enfrentaram uma
grande jornada espiritual e social para serem dignos dos atributos que lhes
conferiam o prestigiado nome de samurai.
Como soldados da aristocracia japonesa, os
samurais ocupavam um alto status na sociedade nipônica daquela época. Eram
dotados de grande capacidade e paciência para entender e absorver os
ensinamentos de Bushido – o caminho do guerreiro. O Bushido era uma espécie de
código de conduta, que exigia maestria para lidar com as mais diversas
circunstâncias de maneira serena, moral e nobre, com introspectivo respeito às
tradições e à história. Esta conduta era influenciada pelo budismo, xintoísmo e
pela filosofia de Confúcio.
O principal instrumento de um samurai, no
entanto, era a katana, ou nihon-to. A famosa espada que
vemos em filmes ou ilustrações era como uma extensão do próprio guerreiro.
Considerada a alma do samurai, a katana retratava a força, a coragem e a
disciplina do homem que a carregava. Para além do seu sentido material, como
instrumento de guerra, a espada era encarada como filosofia de vida.
Simbolizava a castração de todas as impurezas que contaminavam a sociedade. Aos
samurais também era concedido poder perante os civis.
A típica arma, com no mínimo 60 centímetros,
era confeccionada com a mais alta categoria do engenho e competência orientais.
Sua elaboração era um verdadeiro ritual, muito respeitado pelos artesãos e
guerreiros. Com uma leve curvatura e ponta semi-curva – por isso o samurai
embainhava sua espada na altura da cintura – sua fabricação nem sempre seguiu
um único método de produção, e a evolução desse processo originou diferentes
espadas em diferentes épocas. Sua forma mais robusta e compacta, com o gume
virado para cima, foi confeccionada para rápidos golpes de corte. A katana foi
desenvolvida para ser implacável.
A autêntica espada japonesa é feita da
combinação de dois tipos de aço. Esta combinação, que extrai os melhores
atributos dos dois tipos do metal, resulta num material que torna a espada mais
maleável, com uma extraordinária potência de corte em ação. Sua confecção se dá
aquecendo e martelando durante vários dias um bloco desses dois aços
combinados. Uma vez livre das impurezas que o material possa conter, o artesão
começa a dar-lhe a forma de uma espada, e a katana é ligeiramente curvada num
processo suave e paciente.
Para tratar a lâmina, usa-se uma mistura
especial de argila úmida e cinzas de pedra ou ferrugem. Esta mistura é aquecida
e, em seguida, resfriada em água ou óleo, a fim de temperá-la. Em seguida é
endurecida em um calor acima de 800° C. Logo após é iniciado o processo de
polimento que pode levar até três semanas, até a lâmina obter um acabamento
espelhado. Todo este processo pode sofrer pequenas alterações de acordo com o
artesão.
Depois da 2ª Guerra Mundial, a produção de
katanas diminuiu drasticamente. Hoje, raramente é fabricada artesanalmente, mas
apenas em versões industriais, imitações em série, sem corte, para decoração ou
prática de algumas artes marciais.
Passada a era dos samurais, a katana é agora
item de grande valor histórico, considerada a espada de maior qualidade já
produzida pelo homem, venerada por historiadores e colecionadores de todo o
mundo por sua excelência artesanal e artística, além de ser referência cultural
e simbolizar uma época.
A katana era a alma do guerreiro, era a
extensão do seu corpo, que adquiria movimentos teatrais ao desembainhá-la, para
a morte ou para a arte.










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