Literatura: artigo
Por Sílvia Marques
“Sou
paulistana, escritora, bacharel em Cinema, professora universitária e doutora
em Comunicação e Semiótica. Entre meus livros estão "Como identificar e se
livrar de um babaca: Guia de sobrevivência feminina, "Hispanismo e
erotismo: O cinema de Luis Buñuel", "O cinema da paixão: Cultura
espanhola nas telas" e "Sociologia da Educação", indicado ao
Jabuti 2013. Defendo a ideia de que filmes inteligentes e críticos podem
estimular em longo prazo novas atitudes, pensamentos e sentimentos.”
Sim, pessoas intelectuais não
precisam gastar horrores nos lugares da moda para se divertir. Um bom papo
regado a café já faz a alegria de um casal intelectual. Uma cidade como São
Paulo está abarrotada de boas oportunidades de lazer barato para intelectuais:
exposições e concertos gratuitos ou a preços simbólicos; as peças de teatro
mais elaboradas , muitas vezes, são as mais econômicas; sessões de cinema
alternativo também costumam oferecer promoções incríveis. Dar e receber um
livro ou um dvd de presente é demais! Não é preciso gastar uma fortuna
comprando uma roupa de grife.
Em uma sociedade como a brasileira, estudar
parece perda de tempo. Embora nunca tenha se valorizado tanto ter um diploma,
por outro lado, nunca houve tanto desinteresse pelo aprender em si.
Ok.Ok.Ok. Muitos precisam estudar e trabalhar
ao mesmo tempo e tal realidade é realmente complicada. Mas podemos ver
estudantes com tempo para se aplicar e que mesmo assim não se interessam pelos
estudos e podemos encontrar também aqueles que mesmo com pouco tempo se
dedicam. Não é preciso ter milhares de horas por semana para estudar , até
mesmo porque a qualidade do tempo de estudo conta mais do que a quantidade.
Em uma sociedade como a nossa, ter um corpo
perfeito é muito mais importante. Não nego que um corpo bem cuidado seja
bonito. O problema é apostar todas as fichas em músculos e glúteos e deixar
abandonado à própria sorte o nosso órgão mais importante: o cérebro.
Além de músculos bem definidos, a nossa
sociedade valoriza também um tipo mais espontâneo de inteligência, para não
dizer esperteza. Quem sabe fazer gambiarras é aplaudido, mesmo que em silêncio
para não ferir as suscetibilidades do politicamente correto, bastante em alta
em nossa sociedade também. Faz-se de tudo, mas comentar jamais.
Pessoas com intelecto mais desenvolvido, que
estimulam o gosto pelo aprender, que se interessam pelos mais variados assuntos
e pontos de vista, que se abrem para diálogos profundos e francos, que passeiam
pelas mais variadas artes, que dão bicadinhas na filosofia , na psicanálise, na
antropologia, na sociologia , entre outras ciências, tende a ampliar
enormemente suas conexões cerebrais , desenvolvendo características como
alteridade, capacidade de argumentar, capacidade de detectar o discurso alheio,
capacidade de questionar os valores sociais a fim de agir sobre eles. Quem
desenvolve o intelecto passa a ser protagonista da própria vida. Começa a
escrever a sua própria história em vez de se enxergar como peça passiva de um
gigantesco tabuleiro, manipulável por mãos poderosas e onipotentes.
Quem expande suas conexões cerebrais não faz
ou deixa de fazer as coisas porque todo mundo faz ou deixa de fazer. Quem
expande as conexões cerebrais deixa de ser fantoche e torna-se alguém imunizado
contra manipulações das mais variadas naturezas. Quem expande suas conexões
cerebrais torna-se uma pessoa mais interessante, com um papo que flui melhor,
com mais senso de humor, com mais criatividade para reelaborar a própria vida.
Brincando com alunos em sala de aula, disse
que namorar uma garota intelectual é muito mais econômico do que namorar uma
não intelectual. Uma estudante inteligente me ajudou a complementar o meu
pensamento. No final da explanação, disse que a minha fala valia para os
rapazes também.
Sim, pessoas intelectuais não precisam gastar
horrores nos lugares da moda para se divertir. Um bom papo regado a café já faz
a alegria de um casal intelectual. Uma cidade como São Paulo está abarrotada de
boas oportunidades de lazer barato para intelectuais: exposições e concertos
gratuitos ou a preços simbólicos; as peças de teatro mais elaboradas , muitas
vezes, são as mais econômicas; sessões de cinema alternativo também costumam
oferecer promoções incríveis. Dar e receber um livro ou um dvd de presente é
demais! Não é preciso gastar uma fortuna comprando uma roupa de grife.
Sem falar, como diria minha aluna com a qual
concordo totalmente: pessoas intelectuais entendem que rachar contas é mais do
que natural. É o justo. Não é possível falar sobre mulheres empoderadas
enquanto insistirmos em entender as relações amorosas como barganhas. Se um
homem necessitar pagar desde o café expresso até o motel, passando pelos
ingressos do cinema, as garrafas de vinho, os jantares românticos, estaremos
dizendo de forma subliminar que somos prostitutas: que damos a nossa companhia
em troca de passeios. É tão justo e válido, um dia, o homem pagar a conta
inteira de um restaurante quanto uma mulher pagar a conta inteira para agradar
ao seu namorado. Se o homem pode desejar fazer uma gentileza à sua companheira
, a mulher também pode ter o mesmo tipo de anseio em relação ao seu parceiro.
Enfim, quem desenvolve a intelectualidade
passa normalmente a ter um olhar mais amplo sobre o mundo e sobre a vida.
Ultrapassa as linhas do feminismo e do machismo para alcançar o patamar dos
libertários. Aprende a perceber que todo saber é relativo e quanto mais se
aprende , mais se quer conhecer. Torna-se menos escravo do status quo, dos
modismos, do consumismo, das leis tirânicas de um sistema que nos enxerga como
parafusos de uma engrenagem. Sim, se intelectualizar é se libertar. Pois como
disse um professor há séculos..." conhecimento é poder".
Obviamente existem pessoas que estudam muito
e nem por isso desenvolvem a alteridade. Muito pelo contrário. Alguns se tornam
ainda mais dogmáticos e arrogantes. Alguns utilizam o próprio saber para
oprimir e humilhar. Como se diz...em toda regra há exceções. Mas se a gente for
parar para pensar, tais pessoas não são intelectuais de fato.


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