Arte cinematográfica
Por LUIZ ROSA
O novo filme de James
Bond marca o retorno da SPECTRE, grande vilã de alguns livros e filmes, que
havia feito sua última aparição nas telonas no filme "007 - Os Diamantes
São Eternos", de 1971. O novo filme também traz de volta alguns dos
elementos clássicos presentes em toda a série é que haviam sido deixados de
lado no início da era Craig, assim, James Bond veste novamente um smoking
branco, fazendo jus a tudo o que o personagem representa nesses mais de
sessenta anos de sua criação e 54 anos de cinema.
Na capa do blu ray
de Spectre, James Bond veste um smoking branco com um cravo na lapela. Quantos
hoje se vestiriam assim para um jantar? Poucos. Mas 007 faz parte de um mundo
imaginário onde várias coisas permanecem iguais desde sua criação por Ian
Fleming, em 1953. Naquele ano, Elizabeth II havia sido coroada rainha de um
vasto império que possuía domínios em todos os cantos do planeta e que em boa
parte seriam perdidos entre 1950 e 1960 com o processo de descolonização, mas
ainda assim James Bond permaneceu, primeiramente, na literatura e, em seguida,
no cinema, como a representação de todo o poderio do Reino Unido, deixando
sempre os Estados Unidos em segundo plano, uma realidade muito diferente do que
aconteceu no pós Segunda Guerra.
O personagem, um órfão que se tornaria
comandante da Marinha e depois agente secreto com permissão para matar,
salvaria o mundo muitas vezes nesses anos todos, nos livros lutando contra a
SMERSH, acrônimo de Smiert Spionam – Morte aos Espiões, agência russa ligada a
KGB e depois contra a SPECTRE - SPecial Executive for Counter-intelligence,
Terrorism, Revenge and Extortion, que surgiu em 1961, no livro Thunderball. No
cinema, a SPECTRE ocupou, nos primeiros filmes, o lugar de responsável por todo
o caos causado, a fim de atenuar o papel da União Soviética como a grande
inimiga de 007. Assim, foram transferidos a SPECTRE alguns dos vilões dos
primeiros filmes, como Dr. No (filme de 1962) e Rosa Klebb (Moscou Contra 007 –
1963).
Bond demoraria cinco filmes para encontrar
seu arqui-inimigo Ernest Stravo Blofeld, líder da SPECTRE, já que em “Moscou
Contra 007” e “007 contra a Chantagem Atômica” (1965), apenas as mãos do vilão
podem ser vistas junto a seu gato branco, marca registrada do personagem. Seria
então em Com 007 Só Se Vive Duas Vezes (1967), baseado no livro de mesmo nome
de 1964, que Bond vê o vilão, em uma cena memorável, quando Blofeld pergunta se
ele não havia sido morto em Hong Kong e ouve a resposta de que aquela é sua
segunda vida, fazendo jus ao título do filme .
Blofeld apareceria em alguns dos filmes que
seguiram: “007 a Serviço Secreto de Sua Majestade” (1969), “007 – Os Diamantes
são Eternos” (1971) e “007 – Somente para seus Olhos” (1981) sendo que nesse
último, apenas se faz uma alusão ao personagem nas cenas pré-créditos, isso por
conta de uma questão de direitos sobre o personagem resolvida apenas em 2013. A
SPECTRE, seu líder e alguns outros detalhes usados por Fleming no livro “007
contra a Chantagem Atômica”, de 1961, foram criados em parceria com Kevin
McClory, Jack Whittingham e Ernst L. Cuneo, como roteiro para um filme que
seria lançado em 1959, projeto logo abandonado. McClory, no entanto, alegou que
os personagens haviam sido criação sua, o que obrigou a produtora EON a
colocá-lo como produtor do filme de 1965 e explica a existência de “Nunca Mais
Outra Vez”, filme sobre o agente secreto que não faz parte da franquia
original, lançado em 1983.
Assim, por conta da questão judicial, a
SPECTRE retornaria apenas em 2015, marcando também o retorno de Bond aos
trilhos do personagem, que sutilmente foram abandonados após o reboot de 2006
com Cassino Royale, que, aliás, foi o primeiro livro escrito por Fleming e que
também só foi adaptado para o cinema após a MGM conseguir comprar da Sony os
direitos para produzi-lo. O reboot tentou aproximar 007 do mundo atual,
abandonando alguns aspectos clássicos da franquia como, por exemplo, a
preocupação de Bond com a forma de fazer o Martini “batido não mexido”,
personagens como Q e Moneypenny e a famosa gunbarrel na abertura. Também adotou
uma estética próxima aos filmes de Jason Bourne, que há dez anos estava para
estrear o terceiro filme da franquia, fazendo grande sucesso.
Tal estética está ainda mais presente em 007
– Quantum of Solace (2008), o primeiro filme desde 1962 que começa a partir da
história do filme anterior, sendo que a sequência de abertura acontece
instantes depois do final de Cassino Royale quando Bond confronta o sr. White.
O filme, no entanto, não agradou aos fãs e rendeu cerca de 580 milhões de
dólares, o pior resultado de um filme de Bond desde que Daniel Craig assumiu o
papel.
O resultado das inovações de Quantum of
Solace, aliados a uma história ruim, geraram uma necessidade de se retomar
aspectos clássicos do universo de James Bond, prova disso é que “007 Operação
Skyfall” trouxe de volta muitos aspectos presentes em diversos filmes do agente
secreto: Q e Moneypenny retornaram, assim como outras características da
franquia, entre elas a deformidade do vilão e a incrível cena do cassino, que
inclui até um dragão de komodo, alusão provável a clássica cena de “Com 007
Viva e Deixe Morrer” (1973), quando Bond anda sobre jacarés. Para os fãs da série,
isso ficou ainda mais evidente quando o clássico Aston Martin DB5 - carro que
aparece a primeira vez em “007 Contra Goldfinger” (1964) - ressurge ao som do
tema de James Bond, composto por Monty Norman. Um filme sobre um personagem
clássico que muito bem comemorou os 50 anos de cinema e arrecadou como nenhum
outro, batendo a marca de 1 bilhão de dólares e indicando que aquele era o
caminho a ser seguido.
E é esse 007 clássico que pode ser encontrado
em “007 contra Spectre”, lançado em fevereiro em DVD e Blu Ray. O filme é
recheado de cenas que fazem jus a história do personagem, envolvendo trens,
carros cheios de gadjets, além de personagens como M, Q, Moneypenny e a agência
SPECTRE, grande vilã dos livros e filmes. Tudo isso torna ainda mais compreensível
porque afinal James Bond ainda veste smoking branco para um jantar.


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