Arte culinária
Por Dênis Matos
“... se
fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é
uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina &
cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível”.
.
Quando comemos algo feito para
nós, ou preparamos algo para o outro, revisitamos a dedicação que nos foi
entregue na cozinha de casa por nossos pais e avós.
Tinha oito anos quando
cozinhei meu primeiro arroz. À época, morava numa casa no entremeio da zona
Oeste de São Paulo e o município de Osasco. Meus pais ainda formavam um casal.
Desde que tenho notícia do mundo, minha mãe
cozinhava aos montes. Minha irmã e eu, ainda crianças, participávamos disso e
tínhamos na cozinha parte do quintal da vida.
Naquele espaço doméstico minha mãe preparava,
no final dos anos 1980, os bolos de aniversário para toda a família, regados
com Guaraná Antarctica pra ficar “bem molhadinho”. A cobertura era de glace,
uma poção de preço módico que mistura água, açúcar e ovo – e nessa altura anda
meio em desuso. Chantili era coisa para gente bem abastada naquele tempo.
Era ali que as bolotas de nhoque deveriam ser
retiradas da panela quando subissem à superfície. Era ali que se preparava e se
perguntava sobre a “mistura”, porque arroz, feijão e salada eram e ainda são
comidas sine qua non na mesa do brasileiro médio – e o que muda
diariamente é o acompanhamento, pra usar o termo técnico.
Hoje, quando cozinho – e procuro fazê-lo no
mínimo dia sim, dia não – me surpreendo com a capacidade de tocar de alguma
forma todos esses meandros intensos da minha memória afetiva. Reencontro
simbolicamente minha mãe à distância e às milhões de coisas que, sem dizer
palavra, ela me ensinou na cozinha.
Por muito tempo, já adulto, quando colocava a
panela no fogo para preparar algo, pouco compreendia que aquele processo quase
instintivo de fazer arroz aos oitos anos era invocado, tirando algum sulco
desse fruto quase impossível que foi meu début culinário.
Tenho alguns fragmentos dessa passagem: minha
mãe não chegou do trabalho no horário costumeiro. Minha irmã então com cinco
anos falou que tinha fome. Senti um estalo de responsabilidade e reproduzi como
máquina viva os rituais de picar a cebola, de medir a quantidade exata de água
para ferver, de escolher duas xícaras de arroz e lavar com bastante água
corrente. Errei a mão no sal, mas minha mãe fez questão de seguir o jogo, e
comemos essa salmoura de ingenuidade.
De alguma maneira, naquele momento estava
tocando toda a generosidade que a cozinha pode nos ensinar, em especial a
capacidade de forjar cuidado às pessoas que são importantes. Se há um instante
possível para o término de nosso espaço enquanto criança no mundo acredito que
este simbolize o meu. Daí guardo a alegria de ter tocado uma herança tão
simples e tão necessária, meu melhor presente materno.
Sempre que posso refaço esta sensação de
cuidado que a comida carrega. Me animo com a vontade de produzir algo para
suprir um desejo de outro ser – e consequentemente suprir o meu, ao ver
felicidade naquele que consome algo meu. É um exercício que não está preso à
produção prática ou concreta, e sim à retomada desse sentimento de afeto que um
prato de comida pode trazer.
Quando comemos algo feito para nós, ou
preparamos algo para o outro, revisitamos a dedicação que nos foi entregue na
cozinha de casa por nossos pais e avós. Percorremos o que se aprendeu nesse
universo culinário em que as trocas subjetivas estão ocorrendo a todo tempo e
partem do capricho que se coloca numa receita. Isso, ainda que pouco aparente,
segue nos afetando de forma profunda.
Toda essa poesia de mesclar cheiros, tempos,
texturas, cores e sabores é convocada quando você se dispõe a acender o fogo e
prover algum conforto para alguém. É um reencontro com uma ancestralidade que
está guardada em nossas casas da memória.
Tenho a sensação de que cozinhar é um ato
contraditório. Principalmente num tempo em que os detalhes são sucumbidos, a todo
o momento, por imposições modernas.
Como bem observa Michael Pollan na
série Cooked, encabeçada pelo ‘’Netflix’, nunca se viram tantos
programas culinários num momento em que quase ninguém possui tempo e paciência
para fazer sua própria comida. O que comemos foi terceirizado, grosso modo.
É um grande contrassenso, principalmente
quando se encontram inúmeras referências bibliográficas, séries, documentários,
programas de TV e até ‘best sellers’ em que o ato de preparar o alimento se
torna espetáculo e arte.
Não que ele não seja: de fato, cozinhar é um
fenômeno de contemplação e divertimento que pode ser compreendido como algo
espetacular. No entanto, o que se vê é apenas seu uso ‘espetacularizado’ e
pouco concreto, numa produção irrefreável de pratos que não serão comidos por
ninguém e que atendem a um papel de adorno televisivo. Ninguém quer cozinhar de
forma real, mas parecer que cozinha vai bem, obrigado.
Me parece que todo esse excesso imagético do
cenário culinário está mais para uma tentativa de tamponar alguma verdade
desconfortável. Estamos cada vez mais distantes de um processo básico de
preparar nossa própria comida, de ser autossuficiente em coisas simples – e
isso perpassa o universo alimentício e se estende em toda e qualquer esfera
contemporânea.
Isto porque, e novamente chamo a fala de
Pollan, seguimos um cotidiano que não permite “perda de tempo”, em que o
imediatismo precisa ser respondido da maneira mais prática e rápida. Por isso
nos contentamos em comer mais coisas que nos fazem menos, e que pouco exigem
alguma paciência sagrada que nenhum celular permite encontrar.
Há qualquer coisa de rural e simples quando
cruzamos com os modos de fazer de uma sociedade no que tange à culinária. É um
encontro para produzir a própria comida, para escolher quais os ingredientes
melhor cabem no paladar, de se perguntar qual é a amálgama de sensações que
determinada combinação pode produzir. Não é um ato controlável, previsível e
tampouco rápido. É um ato de arte, com o perdão do clichê.
Cozinhar, escreveu Mia Couto, é no mínimo
arriscado. “No alimento se coloca ternura ou ódio. Na panela se verte tempero
ou veneno. Cozinhar não é serviço. Cozinhar é um modo de amar os outros”.
Talvez a poesia explique, ou complique, o motivo de estarmos tão longe da cozinha.


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