Mundo: o desastre da
mudança climática
Mudanças climáticas
estão elevando as águas pelo menos desde meados do século XX
Desaparecem ilhas do Pacífico:. A imagem aérea mostra a ilha de Nuatambu partida em duas pelas águas. SIMON ALBERT / EL PAÍS VÍDEO
Desta vez não se trata de previsões ameaçadoras
para um futuro distante: um grupo de pesquisadores comprovou como em apenas
poucas décadas várias ilhas do oceano Pacífico desapareceram sob o mar. Seu
estudo conecta as mudanças climáticas mundiais com a elevação do nível do mar em escala
local. Uma conexão que tragará muitas outras ilhas e zonas costeiras nas próximas décadas.
Usando
imagens aéreas e por satélites obtidas desde 1947, cientistas australianos têm
acompanhado a elevação do nível das águas que rodeiam as ilhas Salomão, no meio
do Pacífico ocidental. O arquipélago, formado por cerca de 1.000 ilhas que,
juntas, mal superam os 28.000 quilômetros quadrados de extensão, é o lar de
mais de meio milhão de pessoas. De origem vulcânica, muitas são pequenos
pedaços de terra de poucos hectares, quase ao nível do mar. Por isso são um
laboratório onde testar os efeitos das mudanças climáticas nas zonas costeiras.
Os
registros dendrocronológicos obtidos dos troncos das árvores mostram que o
nível do mar se manteve estável nos últimos séculos, somente sujeito a
variações temporais pelo impacto de fenômenos climáticos como El Niño. No
entanto, esse equilíbrio foi para o espaço nas últimas décadas. Desde meados do
século passado o oceano subiu 3 milímetros por ano, uma cifra que se elevou até
os 7 milímetros anuais desde 1994.
Com
esses dados, os pesquisadores puderam comprovar com imagens o desaparecimento
de cinco ilhas. Apesar de que a maior tinha apenas cinco hectares, trata-se de
ilhotas com vegetação, vida silvestre e, pelo menos em dois casos, habitadas.
Em algumas ainda é possível ver árvores que se afogam com as raízes sob o mar.
O estudo,
publicado na Environmental Research Letters, também mostra que outras seis ilhas
perderam até 62% de sua terra. Além disso, o ritmo do avanço do mar está ficando
mais acelerado. As imagens tomadas do céu demonstram que até os anos 60 as
águas arrebataram apenas 0,1% por unidade de área. A porcentagem se elevou até
0,5% anual até 2002 e, a partir daí, explodiu até 1,9%.
"A
elevação do nível do mar nas Ilhas Salomão nos últimos 20 anos foi três vezes
maior que a média mundial”, diz em uma mensagem o pesquisador da Universidade
de Queensland (Austrália), Simon Albert. Embora possa parecer que o nível do
mar tenda a ser igual em todo o planeta, há fatores locais que o elevam ou
baixam.
No
caso das Salomão, “em parte isso se deve ao aumento do nível do mar e, em
parte, ao ciclo natural dos ventos alísios que movem a água no Pacífico
ocidental”, esclarece o cientista australiano. “Mas, independentemente da
combinação de causas, esses resultados nos apresentam uma visão dos impactos da
elevação do nível do mar na segunda metade deste século, quando o restante do
planeta sofrer um ritmo semelhante ao que experimentaram as Ilhas Salomão
nestes 20 anos”, acrescenta Albert.
O
drama está transcorrendo quase ao vivo. Na ilha de Nuatambu, por exemplo,
viviam 25 famílias. O mar lhes roubou a metade da terra e, na década atual,
arrebatou 11 casas. Em várias ilhas as pessoas já tiveram de mudar-se para as
zonas mais altas ou mudar de ilha. Algumas comunidades se fragmentaram, com
alguns membros deslocados e outros ainda resistindo.
No artigo que os próprios pesquisadores escrevem
em The Conversation está incluído o depoimento de Sirilo
Sutaroti, o ancião-chefe que aos 94 anos rege o povo paurata, uma tribo de
pescadores: “O mar começou a adentrar, o que nos obrigou a ir morro acima e
reconstruir nosso povoado longe do mar”.



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