Brasil: educação
Ruth
Costas
Da BBC Brasil em São Paulo
(Nada
melhorou na educação de 2013 para 2016, aliás piorou. Nota deste Blog)
Número de instituições de
ensino superior mais que dobrou desde 2001
Nunca tantos brasileiros
chegaram às salas de aula das universidades, fizeram pós-graduação ou MBAs.
Mas, ao mesmo tempo, não só as empresas reclamam da oferta e qualidade da
mão-de-obra no país como os índices de produtividade do trabalhador custam a
aumentar.
Na
última década, o número de matrículas no ensino superior no Brasil dobrou,
embora ainda fique bem aquém dos níveis dos países desenvolvidos e alguns
emergentes. Só entre 2011 e 2012, por exemplo, 867 mil brasileiros receberam um
diploma, segundo a mais recente Pesquisa Nacional de Domicílio (Pnad) do IBGE.
"Mas
mesmo com essa expansão, na indústria de transformação, por exemplo, tivemos um
aumento de produtividade de apenas 1,1% entre 2001 e 2012, enquanto o salário
médio dos trabalhadores subiu 169% (em dólares)", diz Rafael Lucchesi,
diretor de educação e tecnologia na Confederação Nacional da Indústria (CNI).
A
decepção do mercado com o que já está sendo chamado de "geração do
diploma" é confirmada por especialistas, organizações empresariais e
consultores de recursos humanos.
"Os
empresários não querem canudo. Querem capacidade de dar respostas e de apreender
coisas novas. E quando testam isso nos candidatos, rejeitam a maioria",
diz o sociólogo e especialista em relações do trabalho da Faculdade de Economia
e Administração da USP, José Pastore.
Entre
empresários, já são lugar-comum relatos de administradores recém-formados que
não sabem escrever um relatório ou fazer um orçamento, arquitetos que não
conseguem resolver equações simples ou estagiários que ignoram as regras
básicas da linguagem ou têm dificuldades de se adaptar às regras de ambientes corporativos.
"Cadastramos
e avaliamos cerca de 770 mil jovens e ainda assim não conseguimos encontrar
candidatos suficientes com perfis adequados para preencher todas as nossas 5
mil vagas", diz Maíra Habimorad, vice-presidente do DMRH, grupo do qual
faz parte a Companhia de Talentos, uma empresa de recrutamento.
Outro
exemplo de descompasso entre as necessidades do mercado e os predicados de quem
consegue um diploma no Brasil é um estudo feito pelo grupo de Recursos Humanos
Manpower. De 38 países pesquisados, o
Brasil é o segundo mercado em que as empresas têm mais dificuldade para
encontrar talentos, atrás apenas do Japão.
É
claro que, em parte, isso se deveu ao aquecimento do mercado de trabalho
brasileiro. Apesar da desaceleração da economia, os níveis de desemprego já
caíram para baixo dos 10% e têm quebrado sucessivos recordes de baixa.
Produtividade aumentou apenas 1,1% na última
década, segundo a CNI
Mas
segundo um estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea)
divulgado nesta semana, os brasileiros com mais de 11 anos de estudo formariam
50% desse contingente de desempregados.
"Mesmo com essa expansão do ensino e
maior acesso ao curso superior, os trabalhadores brasileiros não estão
conseguindo oferecer o conhecimento específico que as boas posições
requerem",
explica Márcia Almstrom, do grupo Manpower.
Causas
Especialistas
consultados pela BBC Brasil apontam três causas principais para a decepção com
a "geração do diploma".
A
principal delas estaria relacionada a qualidade do ensino e habilidades dos
alunos que se formam em algumas faculdades e universidades do país.
Os números de novos estabelecimentos do
tipo criadas nos últimos anos mostra como os empresários consideram esse setor
promissor. Em 2000, o Brasil
tinha pouco mais de mil instituições de ensino superior. Hoje são 2.416, sendo
2.112 particulares.
"Ocorre que a explosão de escolas
superiores não foi acompanhada pela melhoria da qualidade. A grande maioria das
novas faculdades é ruim", diz Pastore.
Tristan
McCowan, professor de educação e desenvolvimento da Universidade de Londres,
concorda. Há mais de uma década, McCowan estuda o sistema educacional
brasileiro e, para ele, alguns desses cursos universitários talvez nem pudessem
ser classificados como tal.
"São mais uma extensão do ensino
fundamental", diz McCowan. "E o problema é que trazem muito pouco
para a sociedade: não aumentam a capacidade de inovação da economia, não
impulsionam sua produtividade e acabam ajudando a perpetuar uma situação de
desigualdade, já que continua a ser vedado à população de baixa renda o acesso
a cursos de maior prestígio e qualidade."
Para
se ter a medida do desafio que o Brasil têm pela frente para expandir a
qualidade de seu ensino superior, basta lembrar que o índice de analfabetismo
funcional entre universitários brasileiros chega a 38%, segundo o Instituto
Paulo Montenegro (IPM), vinculado ao Ibope.
Especialistas questionam qualidade de novas faculdades no Brasil
Na
prática, isso significa que quatro em cada dez universitários no país até sabem
ler textos simples, mas são incapazes de interpretar e associar informações.
Também não conseguem analisar tabelas, mapas e gráficos ou mesmo fazer contas
um pouco mais complexas.
De 2001 a 2011, a porcentagem de
universitários plenamente alfabetizados caiu 14 pontos - de 76%, em 2001, para
62%, em 2011. "E os resultados das próximas pesquisas devem confirmar essa
tendência de queda", prevê Ana Lúcia Lima, diretora-executiva do IPM.
Segundo
Lima, tal fenômeno em parte reflete o fato da expansão do ensino superior no
Brasil ser um processo relativamente recente e estar levando para bancos
universitários jovens que não só tiveram um ensino básico de má qualidade como
também viveram em um ambiente familiar que contribuiu pouco para sua
aprendizagem.
"Além
disso, muitas instituições de ensino superior privadas acabaram adotando
exigências mais baixas para o ingresso e a aprovação em seus cursos", diz
ela. "E como consequência, acabamos criando uma escolaridade no papel que
não corresponde ao nível real de escolaridade dos brasileiros."
Postura e experiência
A
segunda razão apontada para a decepção com a geração de diplomados estaria
ligada a “problemas de postura” e falta de experiência de parte dos
profissionais no mercado.
"Muitos jovens têm vivência
acadêmica, mas não conseguem se posicionar em uma empresa, respeitar
diferenças, lidar com hierarquia ou com uma figura de autoridade", diz Marcus Soares, professor do Insper
especialista em gestão de pessoas.
"Entre
os que se formam em universidades mais renomadas também há certa ansiedade para
conseguir um posto que faça jus a seu diploma. Às vezes o estagiário entra na
empresa já querendo ser diretor."
As
empresas, assim, estão tendo de se adaptar ao desafio de lidar com as
expectativas e o perfil dos novos profissionais do mercado – e em um contexto
de baixo desemprego, reter bons quadros pode ser complicado.
Para
Marcelo Cuellar, da consultoria de recursos humanos Michael Page, a falta de
experiência é, de certa forma natural, em função do recente ciclo de expansão
econômica brasileira.
"Tivemos
um boom econômico após um período de relativa estagnação, em que não havia
tanta demanda por certos tipos de trabalhos. Nesse contexto, a escassez de
profissionais experientes de determinadas áreas é um problema que não pode ser
resolvido de uma hora para outra", diz Cuellar.
Nos
últimos anos, muitos engenheiros acabaram trabalhando no setor financeiro, por
exemplo.
"Não
dá para esperar que, agora, seja fácil encontrar engenheiros com dez ou quinze
anos de experiência em sua área – e é em parte dessa escassez que vem a
percepção dos empresários de que ‘não tem ninguém bom’ no mercado",
acredita o consultor.
'Tradição bacharelesca'
Por
fim, a terceira razão apresentada por especialistas para explicar a decepção
com a "geração do diploma" estaria ligada a um desalinhamento entre o
foco dos cursos mais procurados e as necessidades do mercado.
É bastante disseminada no Brasil a ideia de que cargos
de gestão pagam bem e cargos técnicos pagam mal. Mas isso está mudando – até
porque a demanda por profissionais da área técnica tem impulsionado os seus
salários. Gabriel Rico
De
um lado, há quem critique o fato de que a maioria dos estudantes brasileiros
tende a seguir carreiras das ciências humanas ou ciências sociais - como
administração, direito ou pedagogia - enquanto a proporção dos que estudam
ciências exatas é pequena se comparada a países asiáticos ou alguns europeus.
"O
Brasil precisa de mais engenheiros, matemáticos, químicos ou especialistas em
bioquímica, por exemplo, e os esforços para ampliar o número de especialistas
nessas áreas ainda são insuficientes", diz o diretor-executivo da Câmara
Americana de Comércio (Amcham), Gabriel Rico.
Segundo
Rico, as consequências dessas deficiências são claras: "Em 2011 o país
conseguiu atrair importantes centros de desenvolvimento e pesquisas de empresas
como a GE a IBM e a Boeing", ele exemplifica. "Mas se não há
profissionais para impulsionar esses projetos a tendência é que eles percam
relevância dentro das empresas."
Do
outro lado, também há críticas ao que alguns veem como um excesso de
valorização do ensino superior em detrimento das carreiras de nível técnico.
"É
bastante disseminada no Brasil a ideia de que cargos de gestão pagam bem e
cargos técnicos pagam mal. Mas isso está mudando – até porque a demanda por
profissionais da área técnica tem impulsionado os seus salários", diz o
consultor.
Rafael
Lucchesi concorda. "Temos uma tradição cultural bacharelesca, que está
sendo vencida aos poucos”, diz o diretor da CNI – que também é o diretor-geral
do Senai (Serviço Nacional da Indústria, que oferece cursos técnicos).
Segundo
Lucchesi, hoje um operador de instalação elétrica e um técnico petroquímico
chegam a ganhar R$ 8,3 mil por mês. Da mesma forma, um técnico de mineração com
dez anos de carreira poderia ter um salário de R$ 9,6 mil - mais do que ganham
muitos profissionais com ensino superior.
"Por
isso, já há uma procura maior por essas formações, principalmente por parte de
jovens da classe C, mas é preciso mais investimentos para suprir as
necessidades do país nessa área", acredita.



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