Literatura: crônica
(arte cinematográfica)
Por Sílvia Marques
(É) “paulistana,
escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora
universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata
na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas,
amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias
inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se
tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa
mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em
versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu...”
Mas o que
"O grande Gatsby" e a geração perdida tem a dizer a nós? Se hoje
moças ricas podem sim se casar com homens pobres ou simplesmente se juntar a
eles, algo ainda permanece intacto da geração perdida. Certo cinismo e
hedonismo exagerado para compensar a falta de um sentido maior para a vida.
Além disso, o poder estabelecido continua determinando as uniões mais
vantajosas, exigindo de quem contraria as regras do politicamente correto e
conveniente, o investimento de uma força descomunal para viver relações
consideradas inadequadas ou pouco convencionais.
Versão cinematográfica de O grande Gatsby, de
2013
"O Grande Gatsby" foi
publicado em 1925, escrito por F. Scott Fitzgerald, personagem homenageado no
filme "Meia-noite em Paris" de Woody Allen. Fitzgerald fez sucesso
como autor de livros e roteirista de cinema, ofício que ele considerava menor,
mas praticava para ganhar dinheiro.
Com um relacionamento conturbado
com sua esposa Zelda, Fitzgerald foi um dos mais importantes nomes da geração
perdida ao lado de Ernest Hemingway.
Em livros como "O grande
Gatsby" de Fitzgerald e "O sol também se levanta, de Hemingway, é
mostrado de forma contundente, amarga e melancolicamente sedutora todo um modo
de vida que tomou conta dos jovens ociosos que não acreditavam em nada mais do
que o prazer do momento no pós Primeira Guerra Mundial. Boêmios, luxuriosos e
profundamente solitários, os personagens da geração perdida transformam em
glamour a falta de sentido para a vida.
Versão cinematográfica de O grande Gatsby, de
1974
"O grande Gatsby" gira
em torno da seguinte tese: moças ricas não casam com homens pobres. Na versão
de 1974, esta frase é pronunciada por Daisy, interpretada magistralmente por
Mia Farrow. Daisy esconde por detrás de um semblante doce e frágil , uma personalidade
manipuladora e inescrupulosa ao extremo. Daisy , de certa forma , encarna o
espírito frívolo e luxurioso de uma época marcada por grandes fortunas e pela
decadência dos valores morais.
A primeira versão cinematográfica
não possui uma estética tão criativa como a segunda, em que a própria
plasticidade das imagens parece nos comunicar toda a falsa fluidez das relações
sociais.
Porém, a primeira apresenta
diálogos contundentes e uma aura lasciva. O filme reitera a questão do poder e
a perversa dinâmica entre casais de conveniência. Gatsby é o grande ingênuo do
filme, ao lado da amante do esposo de Daisy. Ele acredita no amor, pensa ser
capaz de desafiar o poder e se integrar a ele , por meio de sua fortuna
conquistada ilegalmente. Porém, é apenas um aprendiz na arte de trapacear. Ele
é um transgressor no sentido mais romântico da palavra. Daisy e seu esposo são
dois mestres no que diz respeito a romper superficialmente , para logo em
seguida recolocar tudo em seus velhos e tradicionais lugares. Eles se excedem
nos jogos de sedução , fazem o que bem entendem, mas por fim, permanecem juntos
porque são o ícone do poder.
Por detrás das imagens
esteticamente belas e delicadas, existe todo um horror moral subjacente ,
misturado de forma harmoniosa aos vestidos vaporosos das mulheres dos anos 1920
, que dançam ao som do jazz.
Uma realidade linda e elegante por fora e
apodrecida por dentro
Mas o que "O grande
Gatsby" e a geração perdida tem a dizer a nós? Se hoje moças ricas podem
sim se casar com homens pobres ou simplesmente se juntar a eles, algo ainda
permanece intacto da geração perdida. Certo cinismo e hedonismo exagerado para
compensar a falta de um sentido maior para a vida. Além disso, o poder
estabelecido continua determinando as uniões mais vantajosas, exigindo de quem
contraria as regras do politicamente correto e conveniente , o investimento de
uma força descomunal para viver relações consideradas inadequadas ou pouco
convencionais.
Quem desafia o poder ainda é
visto como ingênuo, como fora da realidade. Ainda a sociedade espera que cada
um de nós leia o subtexto que existe em cada situação social. Ainda nos
privamos do prazer e da alegria de expressar ferozmente um amor inadequado no
sentido social por receio de trazer à tona a ira e a maledicência de uma
sociedade que ainda não aprendeu a amar.
As conveniências ainda falam
bastante alto. Todo amor ou conduta que arranhe as regras do status quo é
coagido de forma subliminar até sentir-se ridículo e constrangido.
Provavelmente , um dos grandes
indícios para identificar a importância de um livro é a atualidade da obra.
Grandes livros nunca deixam de ser atuais , mesmo quando se centram num
contexto distante do nosso. Grandes livros dissertam sobre as principais
mazelas humanas, que incluem o nosso egoísmo, a nossa incapacidade de amar
plenamente, o nosso medo diante da morte e do desconhecido, nossa relação com o
divino, o nosso cinismo diante do vazio, a sensualidade tentando preencher as
lacunas de uma vida afetiva nula ou medíocre, a perversa dinâmica do poder, a
utopia da liberdade irrestrita, o sentido da vida.




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